Roberto Franco comanda revolução silenciosa na Record

O engenheiro eletrônico baiano Roberto Franco, de 38 anos, está comandando uma revolução, até o momento silenciosa, na Rede Record de Televisão. Há dois meses no posto de vice-presidente de Operações da emissora controlada pelo bispo Edir Macedo, o líder evangélico da Igreja Universal do Reino de Deus, o católico Franco fechou contrato, há um mês, com a apresentadora Adriane Galisteu. "Ela tem total liberdade para fazer o programa e abordar os temas comuns a adolescentes, como sexo e drogas", garante o executivo.Franco também comprou os direitos exclusivos de transmissão da Fórmula Mundial, na qual os brasileiros Gil de Ferran, Roberto Pupo Moreno e Christian Fittipaldi têm dado alegrias aos torcedores. E mais: renovou contrato para a transmissão dos torneios mundiais de tênis, a exemplo de Roland Garros, onde o catarinense Gustavo Kuerten, o Guga, brilha nas quadras de saibro.Pai de dois filhos e há cinco anos radicado em São Paulo o vice-presidente de Operações da Rede Record promete mais novidades para o próximo ano: "Vamos criar o segundo horário de novelas em 2001, ou seja aumentar o nosso núcleo de teledramaturgia, hoje com apenas um horário e uma produção, pois há uma oferta crescente e consolidada de talentos na teledramaturgia." Na segunda-feira, dia 20, a emissora apresentou o primeiro capítulo da novela Vidas Cruzadas, que substitui Marcas da Paixão e que tem no elenco, entre outros Gianfrancesco Guarnieri, Sérgio Britto, Laura Cardoso e Ângela Leal.Os programas evangélicos também estão com horário restrito, de 1 da madrugada às 7 horas da manhã. "A nossa grade é absolutamente comercial", diz Franco e explica que a própria Universal compra o horário ocupado pela programação religiosa. A emissora, garante o executivo, também não faz restrição a campanhas publicitárias. "A Record é contra a apologia ao álcool e ao cigarro, participa de campanhas nesse sentido, mas não faz restrição à propaganda desses produtos", diz.Com um faturamento de R$ 200 milhões no ano passado, a emissora deve fechar o ano com 35% a mais sobre esse montante, crescimento que, aposta Franco, deve-se repetir no próximo ano. Na sexta-feira, no café da manhã, o executivo exibia, orgulhoso, dados divulgados pelo Ibope/Monitor mostrando que a receita da emissora cresceu 31% no primeiro semestre, atingindo R$ 160,4 milhões. "O nosso preço de tabela tem pouca flexibilidade e o valor é bem próximo do que realmente ocorreu", diz, deixando claro que, a exemplo de outras emissoras, também pratica descontos dependendo do porte do anunciante. A seguir os principais trechos da entrevista concedida por Franco:Agência Estado - Como o sr. entrou para o mundo da televisão e chegou à Rede Record?Roberto Franco - Eu me formei em engenharia eletrônica, com especialização em telecomunicações pela Universidade Federal da Bahia e, no início dos anos 80, comecei a trabalhar com a equipe que instalou a TV Bahia, uma afiliada da TV Globo. Fiz cursos, aprendi muito e, decidi, depois de quatro anos, atuar como consultor na instalação desse tipo de projeto. Viajei para vários locais do País e atuei em instalação de afiliadas da Manchete, da Bandeirantes e da TV Record. Em 1995, depois desse trabalho, surgiu o convite para trabalhar na Record como diretor de engenharia e operações. A emissora estava traçando um plano estratégico de ação, do qual participei e que tem pautado nossa atuação.AE - E qual era esse plano e o que mudou há dois meses, quando assumiu o cargo de vice-presidente de Operações?Franco - A opção da Record foi a de investir pesado na programação ao vivo, que responde por 70% da programação. A nossa fórmula deu certo. Tanto que comunicadores que começaram conosco hoje estão na TV Globo, que depois decidiu também apostar nos comunicadores que havíamos iniciado, de programas ao vivo, que permitem a participação direta dos telespectadores. Foi assim, por exemplo, com o Carlos Maza, o Ratinho, e Ana Maria Braga, exatamente como é hoje com os programas da Eliana, o Note e Anote, o da Adriane Galisteu e o Jornal da Record ancorado pelo Boris Casoy. O que altera com a mudança de cargo é que, agora, tenho mais liberdade para agir.AE - O sr. citou dois apresentadores que já deixaram a casa, eles fazem falta?Franco - O programa do Ratinho ainda estava em fase de refinamento quando ele deixou a emissora, pois teve início no segundo semestre de 1997 e ele, ao ganhar projeção, saiu no fim de 1998. É um comunicador de primeira, mas o programa seria refinado para ficar dentro da filosofia da empresa. Já Ana Maria Braga, que começou na Record em 1993 e saiu também em 1998, foi a primeira a apresentar o Note e Anote, um programa que continua mantendo a sua audiência. Ela saiu numa sexta-feira e na segunda seguinte a apresentadora Kátia Fonseca estava em seu lugar. Outra troca foi feita e quem apresenta o programa é a Claudete Troiano.AE - O sr. fala de refinamento, dê um exemplo.Franco - O Cidade Alerta começou mostrando cenas muito mais violentas, bizarras, hoje está focado no serviço que é o que o telespectador deseja mais. O programa não agride verbalmente e visualmente, ele informa o público.AE - E a Adriane Galisteu, ela tem liberdade para abordar temas polêmicos, como sexo e drogas?Franco - Tem total liberdade. Nosso objetivo ao contratá-la foi o de oferecer um programa para o público jovem, com a linguagem do jovem e os temas que despertam o seu interesse. Ela também trouxe anunciantes novos ao programa. Vamos continuar perseguindo essa linha e estamos fazendo novos contatos para garantir uma programação de nível e para todas as faixas de público.AE - E o bispo Macedo, não há interferência direta dele ou da Igreja Universal do Reino de Deus?Franco - A operação da TV é comercial. O presidente da emissora, Honorilton Gonçalves, representa os interesses do controlador, mas a grade de programação é comercial. Os programas evangélicos são transmitidos entre 1 da madrugada e 7 da manhã e a Universal paga pelo horário, é uma grade comercial como de outras emissoras. Hoje, temos 67 emissoras afiliadas, das quais apenas duas, a de São Paulo e de São José do Rio Preto são controladas pelo "bispo" Macedo. No Ceará, quem controla a afiliada da Record é uma família católica, a do empresário Miguel Dias, assim como no Recife o controle é do grupo Nassau. Quanto à filosofia, procuramos ter programas mais elevados, dentro de um cótigo de ética que não está escrito, mas que se fundamenta no respeito ao telespectador e aos valores familiares. Somos contra o apelo à violência e ao sexo, de forma gratuita, apenas para atingir pontos de audiência no Ibope.AE - O sr. pretende duplicar o número de novelas a partir do próximo ano, como vê as restrições que a TV Globo tem enfrentado com "Laços de Família"? Franco - Repudiamos qualquer tipo de censura. Acho que os excessos devem ser evitados, mas a censura é uma coisa que temos de combater, de todas as formas. Queremos duplicar nossas novelas porque há uma gama enorme de profissionais talentosos disponíveis no mercado, como anunciantes dispostos a investir no produto. Trata-se de uma decisão comercial.AE - Os resultados da emissora são crescentes, mais ainda assim abaixo de grandes redes como a Globo e o SBT, como a Record pretente colocar-se no mercado com todas essas inovações que o sr. está conduzindo?Franco - Queremos a liderança. Temos dez estúdios, equipamentos de última geração, profissionais competentes e uma grade diversificada. Acredito que, no futuro próximo, haverá três ou quatro emissoras fortes de TV aberta, dividindo a audiência, como ocorre hoje nos Estados Unidos. A concentração, como acontece hoje, tende a acabar, com a segmentação. Isso quer dizer que as TVs abertas vão dividir, com pequenas diferenças, a audiência. A Record estará entre as três ou quatro que vão dividir o bolo da TV aberta, é nessa direção que estamos caminhando.

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