Roberto faz show picante

Com canções de apelo erótico, cantor dedica o espetáculo, ao final, a Hebe Camargo

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2012 | 02h10

Muito mais desinibido do que de costume. Mais espontâneo, menos desconfiado. Místico como sempre, mas não mais tão reverente. E, certamente, fazendo um dos shows mais "picantes", de maior apelo erótico, de toda sua carreira. Aquele cara que o Brasil ama de Norte a Sul, Roberto Carlos, está aceso de novo, como mostra em sua turnê iniciada quarta-feira.

No pot-pourri de sua fase moteleira, Roberto passa o rodo no seu público feminino, faz uma seleção "no mercy" total, incluindo Seu Corpo, Café da Manhã, Os Seus Botões, Falando Sério, Côncavo e Convexo. Antes, já tinha cantado Cama e Mesa, brincando com um gesto de melar a boca ao som dos versos "Me esfregar na sua boca. Ser o seu batom. O sabonete que te alisa. Embaixo do chuveiro".

"Não seria nada mal eu tentar ser o galã de sua novela", provoca, e a plateia desaba. Os gritos lá do fundão começam a se tornar histéricos. Cuidado, Brasa!, vai que a segurança não te garante... Até parece que alguém anda agitando o leito real. Ele chegou a "exumar" um texto de Ronaldo Bôscoli, de 1987, que acompanhava a turnê Detalhes naquela década. Um texto de grande malícia erótica, como de resto é o seu show: "Minha vida tem sido um amar sem conta, lúcidas ou tontas, muitas, mas não tantas. Umas à luz do sol, outras em brumas, no sarro ou no carro, na febre da cama algumas. Que me perdoem as palavras que usei pensando nela, mas o suor dela ainda escorre no meu peito. Com ela, o gesto do amor é perfeito".

Ao cantar pela primeira vez para o grande público a canção mais recente, Esse Cara Sou Eu, que está na trilha da novela global Salve Jorge!, o cantor explicou que, dias atrás, recebeu a visita da escritora Gloria Perez, e lhe mostrou a composição. Ela imediatamente lhe disse que a música era perfeita para o romance sobre o qual giraria sua próxima novela. Roberto brincou, dizendo que não imaginava que, num futuro muito próximo, ouviria a música como tema da "Nanda Costa e... o grande Lombardi", esquecendo o primeiro nome do ator Rodrigo Lombardi. Nanda Costa ele encheu a boca para falar o nome. E então explicou o que considera a essência da canção, que trata de "o cara que toda mulher gostaria de ter. O cara que todo homem gostaria de ser. Logicamente, o cara que eu tento ser". O êxito da nova canção parece ter deixado o músico muito animado, tanto que fez questão de citar o arranjador da composição, o tecladista Tutuca Borba (também arranjador de Nossa Senhora).

Roberto Carlos é cada vez mais igual e cada vez mais diferente. Agora, pontua sua fala com histórias novas, declarações e até algumas revelações prosaicas, como a história do cachorro vira-lata que inspirou a música O Portão. Tratava-se do personagem de um livro infantil que leu aos 6 anos, o cão Axaxá, vira-lata que se apaixonou por uma cadelinha. Mas a cadela caiu de amores por um cachorro da cidade, que dirigia um conversível. O Axaxá passou a beber alopradamente. "E olha que eu tô falando de um livro infantil. Eu chorava, e ele lá no bar bebendo", disse Roberto, provocando gargalhadas da plateia. Quando adulto, Roberto arrumou um cachorro que batizou de Axaxá. "E era esse cachorro que me sorria latindo", contou, antes de cantar o clássico O Portão.

Seu rosto, que em tempos recentes parecia meio castigado, marcado pelo sofrimento, demonstra novo entusiasmo. Continua com aquele jeitão de índio de faroeste, um apache ou navajo nômade, mas de novo ciscando nos terreiros alheios. Cantou Mulher Pequena e Pensamentos (que havia reincorporado ao repertório durante o show em Jerusalém, há um ano).

Ao cantar Lady Laura, por exemplo, em homenagem à mãe que morreu em 2010, fez questão de ressaltar a melancolia que lhe causa executá-la. "Hoje não posso dizer que a canto com a mesma alegria, mas o amor é cada vez maior." E concluiu dedicando o show à amiga Hebe Camargo, pedindo uma salva de palmas para a apresentadora morta em setembro. Esse cara se garante.

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