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Fábio Porchat
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Roberto Carlos

Até uns dez anos atrás, qualquer um que dissesse "sou fã do Roberto Carlos" passaria despercebido na multidão. Claro que você é fã. O cara é o rei. O Brasil ama esse cara. As músicas que ele canta são incríveis e ninguém se cansa dele, mesmo ele lançando todo ano o mesmo CD, com as mesmas músicas, só mudando a foto da capa.

FÁBIO PORCHAT, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2014 | 02h08

Só que... Hoje, Roberto Carlos virou sinônimo de outra coisa. Hoje, ele é o cara maluco que tem TOC, o cara que quer censurar as biografias e o cara que voltou a comer carne por dinheiro. Se dizer fã do Roberto Carlos, agora, é uma coisa pra se assumir baixinho, no confessionário e para um padre um pouco mais liberal...

O melhor subterfúgio é dizer "eu adoro as músicas do Roberto Carlos". Mas, mesmo assim, dirão alguns: "músicas dele uma ova que ele não compôs nem duas". Tá, então eu gosto da voz do Roberto Carlos cantando músicas que outras pessoas compuseram. "Ah, mas ele..." Meu Deus, socorro, deixa eu ouvir Detalhes em paz! E aí eu te pergunto: como funciona quando um ídolo seu de muito tempo, de repente, vira uma coisa que não é exatamente aquilo que você admira? O que fazer com o que ele já produziu e que você gosta?

Monteiro Lobato de repente virou racista e eu faço o que com aqueles livros de que eu gostava tanto? Eu jogo fora? Eu queimo? Eu doo para neonazistas? Meu pintor preferido é Salvador Dalí. Estava no Museu Dalí na Espanha quando me disseram que ele foi um escroto, que denunciou os amigos pro governo americano dizendo que eram comunistas. E agora? Vou embora do museu? Passo a gostar de Pollock? Como é que faz pra desgostar daquilo que você adora? Eu relevava a coisa dele só usar azul, de não querer usar preto nem marrom, beleza, era uma doença barra excentricidade de um famoso barra perdeu a noção. Eu até acho que eu consigo separar bem uma música boa do Roberto Carlos dos seus conselhos sobre a compra de carne ou sobre suas opiniões sobre as biografias não autorizadas. Mas, mesmo assim, a magia se quebra um pouco. Eu já olho pra ele com uma sensação de "poxa, Roberto, faz isso não".

Tem como separar o talento da pessoa das maluquices que ela faz ou diz? Se amanhã a Meryl Streep revela ser adoradora de satã, as 18 indicações para o Oscar se escoam pelo ralo? Tudo bem ela perder a credibilidade, mas o talento também? Talvez as pessoas certas para tirarem essa minha dúvida sejam as fãs do Justin Bieber. Meninas, como é que vocês fazem pra ainda gostar desse cara? *fabio.porchat@estadao.com

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