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Roberto Bolaño, gênio numa família de iletrados

Em coletânea de entrevistas, ficcionista relembra sua vida e não poupa críticas a colegas ilustres

21 de maio de 2010 | 19h07

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S. Paulo

 

SÃO PAULO - 2666 é o sétimo livro de Roberto Bolaño a ganhar edição no Brasil. Antes dele, a Companhia das Letras havia lançado a coletânea de contos Putas Assassinas e os romances Amuleto, Os Detetives Selvagens, Noturno do Chile, A Pista de Gelo e Estrela Distante. No primeiro semestre de 2011 a editora lança Terceiro Reich, seguido de Monsieur Pain (no segundo semestre) e Chamadas Telefônicas (só em 2012).

 

linkLeia trecho de '2666'

 

Em termos de genealogia, Bolaño não foi de maneira nenhuma influenciado pela família, revelou numa de suas irreverentes entrevistas. Quatro delas (inclusive a última, concedida a Mónica Maristain, da Playboy mexicana, de julho de 2003) foram reunidas, em novembro passado, pela Meville House Printing, na compilação Roberto Bolaño: The Last Interview & Other Conversations. Bolaño descendia, por parte de pai, de uma família de 500 anos de rigorosos iletrados e, por parte de mãe, de parentes entregues à preguiça há pelo menos três séculos. Era, portanto, a ovelha negra da família, um devorador de livros que, por falta de dinheiro, roubava das livrarias seus autores preferidos. Sua influência é tão grande sobre os novos escritores que até mesmo esse hábito desonesto foi incorporado. 2666 é o livro mais roubado em Portugal. Ele chegou na quinta-feira às livrarias brasileiras.

 

Bolaño ganhava a vida participando de concursos literários. Vencia todos, mas sempre andava de bolsos vazios. Alguns culpam o vício da heroína, que lhe teria consumido a conta bancária e o fígado, levando-o à morte precoce. Outros, a vocação irresistível para vagabundo, que arrumava inimigos a cada entrevista, arrasando autores como Isabel Allende. Bolaño era um leitor exigente. Como escritor, ainda mais. Deixou uma obra em que ataca principalmente seus pares, comparando a cultura literária a uma prostituta que, diante da repressão e do perigo, faz vista grossa. Seu livro Noturno do Chile (2000) é uma denúncia dessa omissão.

 

Nesse inventário ficcional da longa noite ditatorial chilena, enquanto a junta militar tortura dissidentes, intelectuais discutem poesia não muito longe dali. Em Amuleto (1999), um poeta de meia-idade sobrevive à invasão da Universidade Autônoma do México, em1968, escondendo-se no banheiro. Em Os Detetives Selvagens, seu melhor livro depois de 2666, o trotskista Bolaño alimenta o fogo da revolução permanente ao descrever com simpatia a ação de uma gangue de poetas contra o establishment literário - autoparódia do movimento poético por ele criado, o infrarrealismo. Era a vingança de um poeta obrigado a se dedicar à prosa para ganhar dinheiro, após o nascimento de seu filho Lautaro (homenagem ao líder Mapuche que resistiu à invasão espanhola no Chile). Afinal, foram seus contos que despertaram o interesse do editor Jorge Herralde (Anagrama) por sua obra.

 

O ano em que conheceu Herralde, 1995, marcou a virada na vida de Bolaño. O editor não publicou La Literatura Nazi en América (1996) porque a Seix Barral já comprara o polêmico livro, que conquistou os críticos e deixou autores revoltados. Nele, o chileno exercita seu talento enciclopédico, enumerando escritores autoritários que contribuíram com ditaduras militares. O escritor argentino-canadense Albert Manguel não o considera um grande livro. Diz que é um pastiche de Bolaño, que teria emulado Borges (História Universal da Infâmia) e Marcel Schwob (Vidas Imaginárias) para criar seu compêndio de escritores reacionários, em que inclui Rubem Fonseca e Osman Lins.

 

Outro, além de Manguel, poderia lembrar que tudo não passou de ressentimento desse ex-lavador de pratos, segurança de acampamento e lixeiro, hoje o mais badalado escritor latino desde García Márquez. Bolaño, com certeza, teria gostado mais de estar ao lado do poeta e conterrâneo Nicanor Parra. Como ele, poderia ter dito: "Me retracto de todo lo dicho."

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