Edson Kumasaka/Divulgação
Edson Kumasaka/Divulgação

Roberto Alvim visita clássico de Collodi

Em Pinokio, autor subverte tema para propor novo olhar sobre o humano

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2011 | 00h00

Inventar o futuro. Parece ser essa a ambição a nortear a criação do diretor Roberto Alvim. A concepção de uma cena que dê conta do contemporâneo não apenas em seus procedimentos e formas. Que não se restrinja às propaladas desconstruções ou sistemas pós-dramáticos. Em Pinokio, novo espetáculo da Cia. Club Noir que estreia hoje, Alvim lança-se em um território que pretende exceder o drama, extrapolar o teatro. Sem meneios, declara a intenção de nos apresentar um instantâneo do que seria um novo homem, uma humanidade para além do humano.

Não são modestas as intenções do encenador. Depois de mergulhar na obra do norte-americano Richard Maxwell para compor Tríptico - um conjunto de três peças levado ao cartaz em 2010 -, Alvim volta-se agora a um texto de lavra própria. Debruçado sobre a fábula clássica de Carlo Collodi, visita a história do boneco transformado em menino para trilhar um percurso às avessas. Neste Pinokio, são os homens que passam pela experiência de tornar-se outra coisa, uma espécie de máquina surgida da sobreposição de pedaços de corpos e de objetos.

Na contramão de qualquer apego a uma suposta essência humana, o diretor demonstra-se devoto de uma ideia de identidade que não precisaria ser descoberta, mas forjada. "Existe uma recusa a essa máxima de "conhece-te a ti mesmo". A luta é por encontrar não dentro de nós, mas fora de nós, em outras paisagens, a ideia de humanidade."

Novas maneiras de existir e habitar o mundo demandam também uma nova linguagem. Para erigir o seu drama não dramático, Alvim dispõe de uma língua reinventada. Eivada de neologismos e construções sintáticas inusuais, a peça transporta o espectador a um lugar desconfortável, onde não é possível seguir a semântica do que está sendo dito.

A ambição, que resvala na proposta de precursores como o dramaturgo francês Valère Novarina, é a de criação de uma estrutura em que nada precisa ser necessariamente compreendido. Entra em derrocada a noção de entendimento, desponta a de experimentação.

Se o intuito que atravessa Pinokio é atingir o público em seus sentidos, isso não o torna menos cerebral. Ainda que Alvim não alardeie suas referências, é difícil não vislumbrar na sua ficção rastros e desdobramentos das proposições de filósofos, como Gilles Deleuze. Transversalmente, surgem evocações a conceitos cunhados pelo autor de Mil Platôs, como "linhas de fuga", "rizoma" ou "máquina desejante".

A transposição do texto à cena sugere uma continuidade do projeto estético no qual a Cia. Club Noir persevera desde sua criação, em 2008. Assim como nas montagens anteriores, será possível antever a marca de uma encenação minimalista: a luz rarefeita, a cenografia que tende ao abstrato, a elocução lenta, em que a palavra encontra relevos inesperados. Todos esses traços, porém, teriam atingido agora certo paroxismo.

Radicalizados ao extremo, o imobilismo e a propensão à escuridão levaram o grupo a um lugar praticamente sem saída. "É como se tivéssemos forçado esse sistema a um ponto que decreta a sua morte. Não tenho a menor ideia de para onde vamos depois deste trabalho, nem se é possível continuar a fazer peças." Talvez no teatro, como na vida, render-se ao desconhecido seja um risco que valha a pena correr.

PINOKIO

Club Noir. Rua Augusta, 331, telefone 3255-8448. 5ª a sáb., às 21 h; dom., às 20 h. R$ 10. Até 15/5.

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