Roberta, com roque e sem rock

Cantora grava homenagem ao baiano com as cordas do Trio Madeira Brasil

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2010 | 00h00

 

 

A bela e a fera. Roberta Sá e o músico e compositor Pedro Luís, que assina com Marcello Gonçalves a impecável produção do CD

 

 

   Em 2005 Roberta Sá e o Trio Madeira Brasil foram convidados a participar do disco coletivo Samba Novo, produzido por Rodrigo Campello, com o propósito de reunir os jovens expoentes do samba carioca. O produtor abriu uma exceção quando a cantora e o trio decidiram gravar Afefê, inédito do consagrado Roque Ferreira. Foi aí que eles começaram a acalentar o desejo de gravar um álbum inteiro dedicado ao brilhante compositor baiano. O disco está pronto e vai ser lançado em agosto. Na semana passada, Roberta, o produtor Pedro Luís e o engenheiro de masterização Carlos Freitas receberam a reportagem do Estado, no estúdio da Classic Master, para uma audição do CD, que vai se chamar Quando o Canto É Reza, título extraído de um verso de Água Doce.

As introduções e solos no meio das canções, enfim, todo o espaço que ela abre para os instrumentistas brilharem, são evidências de que não se trata de um disco de uma cantora com músicos acompanhantes, mas de um trabalho em conjunto. Roberta diz que é exatamente essa a ideia e que aprendeu muito com esses músicos.

Outra novidade é que as músicas de Roque (com predominância do samba, mas também com outros ritmos como ijexá) exigiram da cantora um outro tipo de interpretação, que ainda não tinha experimentado. "Não dá pra ser cool com as músicas do Roque. Era necessário para esse disco. Acho que aprendi a gostar também de cantar mais pra fora e isso significa mais imperfeito, porque minha voz é mais para o suave, ela funciona bem no suave", observa a cantora.

"Essas músicas e letras são muito fortes, falam de um sentimento que a princípio está distante, mas está na memória do brasileiro, como essa coisa do candomblé. Eu tenho como referência o canto forte, vigoroso de Clara Nunes e Maria Bethânia, mas não usava muito isso."

Zambiapungo (parceria de Roque com Zé Paulo Becker) é a cara de Bethânia. Mas quando ela a cita como referência, bem como Clara Nunes, não significa cópia. "É uma inspiração. Bethânia tem uma força de cantar, de falar as palavras claramente, se preocupa com a letra, com a poesia que canta. Não precisa ser baiano para compreender o universo de Roque Ferreira. Bate no coração de todo brasileiro."

Pedro Luís diz que foi uma honra ter sido convidado para produzir o disco, por ser o "encontro de três coisas preciosas". "Roberta é sempre exigente e cuidadosa na escolha de repertório bacana pra cantar, e de maneira muito especial. As músicas de Roque são inebriantes de onda, de astral, têm um grande espectro de diferenças musicais, samba, chula, samba-de-roda. De Marcello, Zé Paulo e Ronaldo sou fã deles como trio e individualmente. Têm trabalhos distintos e sensacionais que são trilha sonora da minha vida há muitos anos."

Ele e Roberta estiveram no Recôncavo com o recluso Roque Ferreira e o cineasta Felipe Lacerda, que registrou o encontro para um documentário que provavelmente vai ser exibido no Canal Brasil e lançado em DVD. "Fomos mostrar algumas coisas a Roque, que o emocionaram muito, e para levá-lo de volta à cidade de origem dele, Nazaré das Farinhas, onde não ia desde criança, quando se mudou para Salvador", diz Pedro.

Se o disco tem tudo de Roque, "não tem nada de rock", como diz o produtor, referindo-se ao processo de masterização (leia abaixo). A princípio seriam só canções inéditas. Porém, antes de começar a gravar, Roberta e o trio fizeram ensaios abertos no Centro Cultural Carioca e decidiram incluir canções já lançadas, como Água de Minha Sede (parceria de Roque com Dudu Nobre), registrada por Zeca Pagodinho. A versão de Roberta ficou "mais pernambucana, meio maracatu". Xirê também já tinha sido gravada pela baiana Clécia Queiroz, que também lançou um álbum inteiro este ano dedicado ao cancioneiro do conterrâneo, Samba de Roque. Mandingo (parceria de Roque com Pedro Luís, foi lançada por ele com seu grupo A Parede. E A Mão do Amor teve um trecho gravado por Maria Bethânia. Além disso, em Festejo, Roberta faz uma citação de Samba pras Moças, também sucesso na voz de Zeca.

Nos shows que a cantora faz de hoje a domingo no Sesc Pinheiros não vai mostrar nada desse disco. "Uma coisa é esse show, com o repertório do DVD Pra se Ter Alegria - que acaba de ganhar disco de ouro pela vendagem de 25 mil exemplares -, outra coisa é o trabalho com o trio. Pra mim essa divisão é muito clara, não dá pra misturar."

TRÊS COISAS...

1. O Trio Madeira Brasil é formado por Marcello Gonçalves (violão de sete cordas), Zé Paulo Becker (violão e viola) e o lendário bandolinista Ronaldo Bandolim, que já tocou com Elizeth Cardoso e Aracy de Almeida, entre outros, como integrante do conjunto Época de Ouro. Seus solos no disco de Roberta são comoventes. "Nas gravações ele levou Marcello e a mim às lágrimas", conta Pedro Luís.

2. Nascido em Nazaré das Farinhas, no Recôncavo Baiano, Roque Ferreira é um compositor compulsivo e tem mais de 400 músicas gravadas por grandes nomes, como Clara Nunes, Beth Carvalho e Zeca Pagodinho. Com um único disco gravado, Tem Samba no Mar (2004), tem sido muito solicitado por cantoras como Maria Bethânia, Mariene de Castro, Fabiana Cozza e Roberta Sá.

3.Em Quando o Canto É Reza, além do Trio Madeira Brasil, Roberta conta com os percussionistas Zero e Paulino Dias. O cantor Moyséis Marques divide os vocais com ela em Tô Fora. Com cerca de 51 minutos de duração, o CD tem 13 faixas. Duas já gravadas, o medley Mão de Ofá/Axé de Oxum e Samba Chula, ficaram de fora, mas devem ser disponibilizadas na internet futuramente.

 

 

 

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