Robert Lepage é vanguarda do começo ao fim

Russos e americanos gastaram bilhões de dólares e sabe-se lá quantos zilhões de rublos para ver de que país seriam os primeiros astronautas a dançar na superfície da Lua. Mas foi um canadense fascinado pelo tema, que nunca voou de Apolo ou de Soyuz, quem fez a mais bela coreografia espacial - sem sair do chão. Em The Far Side of the Moon, espetáculo sobre a corrida espacial durante a Guerra Fria, que foi apresentado pela última vez ontem no Carlton Arts, Robert Lepage desafia a lei da gravidade e, rolando de um lado para o outro do palco em uma cena, consegue vencê-la. É tão irreal que parece cinema (talvez seja mesmo a imagem mais bonita da história do cinema, jamais vista em filme). Mas é teatro. Ou melhor, é Robert Lepage. Deitado no chão, ele se move sem uma lógica aparente, só percebida em seu reflexo no espelho, que está virado para a platéia e inclinado em um ângulo milimetricamente calculado para que se veja o artista flutuar na escuridão intergaláctica, vagando pelo espaço. Ao mesmo tempo, a cena é tão singela que encanta ainda que seja vista sem a ajuda do espelho: ali na frente, um homem de camisa azul rola sobre a madeira preta que serviu de palco até agora há pouco, despertando, engenhosamente, a imaginação do público. Balé cósmico - The Far Side of the Moon é um espetáculo que vale por esses minutos preciosos de balé cósmico. É também por outros achados, como o visor de uma máquina de lavar que se transforma em astronave, janela de avião, aquário, lua, aparelho de tomografia e luz de discoteca. Ou pelo lançamento de um foguete feito com lata de cerveja, caneta e clipe de papel. (Vale até quando você tem a impressão de ser o único que pagou - R$ 70! - pelo ingresso, numa platéia cheia de convidados da produção.) Mas seria uma injustiça reduzir a peça a um amontoado de metáforas. Robert Lepage não criou um veículo para exibição de efeitos "espaciais". Ao trazer a corrida à Lua para a realidade de dois irmãos que acabaram de perder a mãe e que brigam como EUA x URSS, cada um tentando impor o seu modo de vida ao outro, ele conta uma história - universal como a Guerra Fria e compreensível mesmo para quem não gosta de "instalações" e "performances". The Far Side of the Moon tem começo, tem meio e tem (infelizmente) fim. Meticuloso ao extremo, Lepage funciona no palco com a perfeição das máquinas que atuam como suas únicas coadjuvantes. Distribui as frases com a precisão do diretor que sabe exatamente o que quer do ator e com a sutil displiscência de um ensaio aberto. Controla a corrida espacial, transformando o espírito belicoso dos blocos inimigos em uma lenta e gradual realização dos sonhos de pessoas normais. Deve ter sido idéia dele, portanto, retardar a chegada à Lua em uma hora, na apresentação de segunda-feira, aguardando pacientemente a aterrissagem dos espectadores que, livres dos meteoros e detritos espaciais, tiveram de enfrentar o trânsito caótico da Radial Leste em dia greve do metrô.

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