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Robert Guédiguian fala sobre novo filme

O diretor francês comenta 'As Neves do Kilimanjaro' e diz que o personagem nasce da roupa

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

17 de abril de 2012 | 03h06

Cineasta francês de ascendência armênia, Robert Guédiguian é um amigo da Mostra e, como tal, esteve no Brasil algumas vezes, participando do evento criado por Leon Cakoff. Guédiguian é o que pode definir como um autor político. Como o inglês Ken Loach, seu discurso é de esquerda, num mundo em que, após a derrocada do império soviético, a discussão ideológica tende a ser escamoteada. Guédiguian seria um 'fóssil'. Não é. Seu filme As Neves do Kilimanjaro, em cartaz na cidade, não é apenas bom. Discute o que é ser humanista e socialista no século 21. Numa entrevista por telefone, de Paris, ele fala de estética, política, de eleições na França - e da presidente Dilma Rousseff no Brasil.

O tempo passa e seu cinema não desiste da vocação política. Você filma para mudar o mundo?

Poderia dizer que sim, mas prefiro colocar de outra maneira. Desde que comecei a fazer filmes, busco sempre uma forma de intervir na realidade. Há 30 anos, quando fiz Dernier Été, isso não era tão raro. Mas, com as mudanças na geopolítica mundial, fomos ficando cada vez mais reduzidos, os autores que ainda acreditam nisso. Temos de disputar espaços com filmes que, na maioria das vezes, se oferecem como diversão, mas raramente são só isso. Filmes vendem ideias, você sabe, mesmo quando dão a impressão de não fazê-lo.

As Neves trata da crise de um casal de esquerda. O ex-sindicalista assaltado recorre à polícia para prender o ladrão. Essa história tem algum componente pessoal?

Você quer saber se fui assaltado? Ela se refere muito mais às minhas dúvidas. Quando apela à polícia, Michel deflagra um processo que se desenrola em dois movimentos. Um externo e outro, interno. Ele se pergunta se fez a coisa certa. É um assunto que me interessa. É justo desencadear a máquina repressiva do Estado contra um elo fraco da corrente social? Mas e se isso não ocorrer? Como fica a responsabilidade social? Não são perguntas fáceis de responder e tenho certeza de que muita gente de esquerda já as formulou. Achei que seria uma proposição interessante para um novo filme. Na França, As Neves desencadeou debates acalorados. Espero que no Brasil ocorra a mesma coisa, mesmo que a realidade, aí, não seja exatamente a mesma.

O Brasil, como País emergente, consolida-se cada vez mais. A economia europeia, pelo contrário, está próxima do colapso. Como vê a situação?

Com preocupação. Me agrada ver que o Brasil, sob o comando do ex-presidente Lula e, agora, da presidente Dilma, possui um outro status no mundo. Ao mesmo tempo, sei que as desigualdades sociais continuam imensas, mesmo com um ascenso muito grande de camadas antes excluídas na classe média. Mas a situação da Europa está, sim, mais vulnerável. Marx foi um grande pensador social. Acho que ele deve estar dando cambalhotas em seu túmulo. O comunismo morreu, o capitalismo venceu. A coisa não é tão simples. O que temos hoje não é o capitalismo. É um sistema formatado para os bancos, e no qual eles são os grandes beneficiados. Isso ocorre de maneira mais forte ainda em países como o seu. Os juros aí são escorchantes, um descalabro em relação aos números daqui, e em plena crise.

Imagino que você esteja engajado no processo eleitoral na França. Os socialistas ganham a eleição?

Creio que sim, mas tenho de admitir que uma eventual vitória socialista talvez não decorra do fortalecimento de uma posição de esquerda, mas de uma vulnerabilidade maior da direita. (Nicolas) Sarkozy não foi o presidente dos sonhos dos franceses, a extrema-direita assusta e Marina Le Pen não tem o carisma de seu pai. A crise da economia, o desemprego, o sempre explosivo problema dos imigrantes, tudo deve influenciar no processo, mas, como eu digo, é muito mais uma implosão interna da direita que um avanço real da esquerda.

Em As Neves, você reencontra seus atores de sempre - Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin. Como é fazer filmes sempre com as mesmas pessoas?

Somos amigos, você sabe, temos um ideário comum. Acreditamos nas mesmas coisas. Essa preocupação com o velho humanismo, a questão do engajamento político e social são coisas que compartilhamos.

E como é um roteiro de Guédiguian? Conhecendo-os tanto, você os deixa livre para improvisar?

Nem tanto, embora existam sempre discussões prévias. Eles não estão frente às câmeras como Ariane, Jean-Pierre. Interpretam personagens. Mais do que com os diálogos, eu me preocupo com o hábitat do personagem, com suas roupas. Sabe como as figuras vão nascendo? Minha figurinista e eu vamos a lojas de departamentos. Começamos a vestir os personagens e, assim, eles vão surgindo. Às vezes, um detalhe da roupa é mais importante do que o discurso. É um método que emprego há tempos, e que funciona.

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