Rixas helênicas no almoço de domingo

"Todo dia é como domingo, é silencioso e cinzento." Só se for em Londres. A música de Morrisey (Every Day Is Like Sunday), alfinetada por Julian Barnes em O Sentido de Um Fim como o retrato de uma geração que não tem o que dizer, não reflete o que rola lá em casa.

MARCELO RUBENS PAIVA, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2013 | 02h08

Domingo é um dia peculiar. Domingo é o dia do almoço de domingo, em que a sinceridade e a insanidade familiar ficam exacerbadas. Mal-entendidos perdidos na memória são, do nada, trazidos à mesa antes da polenta. Do nada? A psicanálise não diria isso.

Depois, de segunda a sexta, gasta-se tempo com arrependimentos em noites maldormidas, troca de e-mails com pedidos de desculpas, refletindo sobre o que não deveria ter sido dito, e por que somos transparentes em excesso nos domingos.

No sábado seguinte, chega o convite para a trégua com as sugestões do cardápio do almoço do dia seguinte e a lista de tarefas: quem leva o quê.

Lançando mão de um clichê atual. Na mitologia grega, deuses e semideuses passam a maior parte do tempo gerenciando crises. Vivem às turras em conflitos de interesses antagônicos com parentes. Competem num estresse sem-fim para provar quem têm razão. Como nos almoços de domingo.

Minhas irmãs, tias, primas, não são temas de conferências na Casa do Saber, nem citadas em tratados acadêmicos. E duvido que podemos considerá-las "arquétipos". Descendem dos meus avós, que são do lado esquerdo do Mar Adriático. Já agregaram valores gastronômicos de porções astronômicas, homéricas, para falar mal dos outros de barriga cheia. Era o tempo em que estar acima do peso era estar saudável. Hoje em dia, meus primos médicos as reprimem.

Não sei se é possível estabelecer conexões entre as desavenças dos mitos e as da vovó com as filhas, das minhas tias com meus primos, dos primos com os pais, da minha mãe conosco, das minhas irmãs entre si, todos contra a maioria das noras e genros: verdadeiras rixas helênicas.

Uma diferença. As punições, banimento em ilha repleta de corvos, envenenamento e tortura com correntes, são mais brandas. Bem, deuses podem tudo, até punir com a morte. Na minha infância, o castigo mais terrível era o exílio para o quarto e o sequestro da sobremesa. Arrumar o armário era, como para Sísifo, uma ida e volta sem-fim com cacarecos nas costas. A gaveta com guloseimas seria acorrentada, como Prometeu. O controle remoto, banido.

Heráclito escreveu: "A harmonia é resultante da tensão entre contrários, como a do arco e da lira". Mas o cara era grego. Na minha família, quando o pau quebra, a harmonia não sucumbe nem à torta de cebola. Sem contar que, às 16 h, para tudo: futebol na TV.

Contrastes e dualidades estão sempre no centro dos conflitos entre mitos. Nascem os complexos. Mas o de Édipo, sei lá, não tem nada a ver com a minha família. Freud analisou a historinha trágica. Freud foi uma espécie de voyeur do Olimpo. Um provocador: "Este austríaco está dizendo que minha agressividade tem relação com o fato de eu desejar minha mãe sexualmente e invejar meu pai? Minha mãe, aquela santa? Que mente podre é esta que diz que quero fazer com ela o que meu pai faz? E que papo é esse de as minhas primas e irmãs sentirem um complexo de eunuco?".

Outro conflito que deu o que falar na Grécia Antiga foi a união estável entre Eros e Psique. A linda caçula de um rei de Mileto tirava o fôlego de todos da região. Enciumada, Afrodite mandou o filho, Eros, cortar as asas da concorrente. Porém, o mito se apaixonou. Claro que a mãe os infernizou até não poder mais. Eros teve um papo com Zeus, implorou que ele apaziguasse a ira de Afrodite e legitimasse o casamento. Depois, nasceu o filho de Eros com Psique: Voluptas (Prazer). O prazer seria resultado do amor e da alma.

Não satisfeito em nos atormentar com histórias do arco jônico, Freud desencavou outro conflito enterrado e superado, o de Eros com Thanatos, vida e morte, prazer e realidade. Eros quer fazer. Thanatos, não. Um cria, é movido pela atração e reprodução. O outro quer o repouso, repulsão, agressão, a própria destruição. Um é instinto de vida. O outro, de morte. Marilena Chauí resumiu: "Se o desejo do homem for o repouso, o imutável, a fuga do conflito, somente a morte (Thanatos) poderá satisfazê-lo". Eros e Thanatos agregam e separam, um vai estar sempre contra o outro, mas ambos estarão juntos, coexistindo. Amamos com a mesma intensidade que odiamos.

Nietzsche foi outro que escreveu teorias que comparam nossas crises pessoais com destinos helênicos. Buscou em dois coitados, Apolo e Dionísio, vítimas de bullying na Grécia Antiga, a distinção entre dois princípios que também se negam, mas acrescentam. Ambos são filhos de Zeus. Apolo é da música, dança, poesia, parece perfeito, sereno. Dionísio, bebum costumas, simboliza forças obscuras. A experiência apolínea é a produção da forma e beleza. Já a dionisíaca rompe com o princípio de individualização. A briga caseira entre Apolo e Dionísio vira arte.

Aí está explicada a importância do domingo. E a troca de e-mails de segunda, terça, quarta... Será que a rapaziada lá em casa é arquetípica?

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