Rivette, o sem medidas

Cariocas começam a ver hoje retrospectiva que desembarca no CCBB daqui na semana que vem

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2013 | 02h19

É digno de elogio que à retrospectiva de Eric Rohmer no Centro Cultural São Paulo suceda-se agora a de Jacques Rivette no Centro Cultural Banco do Brasil. O evento começa hoje no Rio e desembarca na semana que vem (dia 3) em São Paulo. No imaginário popular, Jean-Luc Godard e François Truffaut foram os chefes de fila da nouvelle vague e as disputas e, finalmente, a ruptura entre eles marcaram a superação histórica do movimento. Mas a verdade é que os mais "nova onda" dos autores franceses foram outros dois. Rohmer, com seus temas da educação sentimental e da sedução amorosa (da libertinagem, mesmo) e Rivette com seu exigente questionamento da narrativa clássica.

Você terá a oportunidade rara de conferir o cinema do antigo redator-chefe de Cahiers du Cinéma, cargo que Rivette ocupou num momento de transição da revista, entre 1963 e 65, quando ela abandonou a famosa capa amarela. Nascido em Rouen, em 1928, ele realizou seu primeiro curta, Le Coup du Berger, em 1956, enquanto Roger Vadim lançava, com E Deus Criou a Mulher, o mito Brigitte Bardot (e a nouvelle vague). O primeiro longa, Paris Nous Appartient (Paris nos Pertence), surgiu três anos mais tarde, e é contemporâneo de Acossado, de Godard (sobre um argumento de Truffaut).

Nove entre dez críticos (onze entre dez?) dirão que Rivette, ainda vivo - tem 85 anos -, foi um teórico mais consistente do que qualquer de seus colegas da nova onda, mas a longa gestação de Paris Nous Appartient e as dificuldades de finalização do filme - diferentes tipos de película, rupturas de tom e elipses que tiveram a ver com as mudanças de atores e, portanto, de personagens - sempre pesaram na avaliação da obra. A ambição de Rivette era certamente desmesurada. Por meio de um grupo de atores às voltas com uma trama fascista mundial, ele quer falar de tudo, da arte e da vida, do amor e da política.

Acima de tudo, o filme já carrega os germens do que será a mise-en-scène segundo Rivette - um gosto pela elaboração e, paradoxalmente, um pé na improvisação, à maneira do cinema-verdade, com base nas ferramentas que as novas tecnologias forneciam aos autores (câmera na mão, registro direto do som etc). O segundo longa de Rivette veio a público somente em 1966, e foi objeto do maior escândalo político da nouvelle vague. Godard já enfrentara problemas com a censura por causa de O Pequeno Soldado, ainda sob o impacto da Guerra da Argélia, mas o anticlericalismo de A Religiosa, que Rivette adaptou de Diderot, desencadeou uma onda de protestos comparável à do casamento gay na atualidade. E, para Rivette, o que interessava nem era tanto a crítica da Igreja - embora tudo ocorra nela, e por causa dela. No centro do filme está a alienação física de Suzanne Simonin, interpretada por Anna Karina - seu corpo sofre todo tipo de castigo e tormento, e depois dos vícios do convento vem o horror da prostituição (que a atriz já experimentara, com seu então marido, Godard, no melhor filme dele - Viver a Vida).

Quase que imediatamente, 1967, Rivette filmou a escalada de um casal no absoluto da relação e na loucura - L'Amour Fou. São quatro horas e meia de furor e os exibidores, assustados, cobraram do diretor uma versão curta, que o público rejeitou. Rivette nunca foi um autor de grande público, mas a versão longa de O Amor Louco atraiu mais gente. De volta ao tema do grupo de atores, ele radicalizou e fez, com Out One, um longa realmente longo - de 12 horas. A versão curta, Out One Spectre, tem 'apenas' quatro horas e meia. Mais sete anos de hiato e veio uma comédia, Céline et Julie Vont en Bateau, em que ele subverteu o relato clássico e colocou em xeque o conceito de "espétáculo", ao contrapor realidade e imaginação.

O restante da obra inclui uma versão de Emily Bronte (Hurlevant/O Morro dos Ventos Uivantes), uma cinebiografia de Joana d'Arc, Jeanne la Pucelle, em duas partes (As Guerras e As Prisões, cada uma com três horas), o surpreendente maior sucesso de público do autor - A Bela Intrigante, adaptado de Balzac (Obra-prima Desconhecida), com Michel Piccoli - e a que talvez seja sua obra-prima, Ne Touchez pas las Hache, com Guillaume Depardieu, também baseado em Balzac e filmado antes como A Duquesa de Langeais. Todo Rivette está neste filme, aquilo que Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, define como o gosto do autor por sociedades secretas, complôs que podem ser produtos da imaginação e a consequência disso, armadilhas que desviam a atenção do público.

Rivette, diferentemente de Godard e com extremo rigor, discute a linguagem e opera mudanças e transformações desde o interior, numa estrutura clássica. É um grande cineasta e em vários de seus filmes você terá a chance de conferir, ou conhecer, uma das maiores e mais completas atrizes do mundo, Bulle Ogier. O Amor Louco, Out One, Céline não seriam tão bons sem a força de Bulle.

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