Divulgação
Divulgação

Rivette leva Céline e Julie no barco da vida

Henry James é revisto por um dos autores essenciais da nouvelle vague

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2011 | 00h00

Um dos principais teóricos da nouvelle vague - sua contribuição à conceituação do movimento teria sido maior que a de François Truffaut e Jean-Luc Godard -, Jacques Rivette sempre se ressentiu, aos olhos do público e até da crítica, do próprio radicalismo. Há em seu cinema, desde o começo, um desejo declarado de romper com as estruturas da narrativa. No Dicionário de Cinema, Jean Tulard observa que esse mesmo desejo está em Robbe Grillet, mas enquanto o escritor sabe atrair o público, Rivette dá a impressão de querer desestimular a participação do espectador.

É discutível que assim seja, principalmente se pensarmos nos grandes filmes de Rivette - A Bela Intrigante, Ne Touchez pas la Hache, sua brilhante adaptação de Honoré de Balzac, com uma das últimas d (e a maior) interpretação de Guillaume Dépardieu. E, claro, Céline et Julie Vont en Bateau. Com o título de Céline e Julie Vão de Barco, o clássico de 1974 está saindo em DVD pela Platina. Vem somar-se, nas locadoras, a outros lançamentos de luminares da nouvelle vague, o movimento de renovação do cinema francês por volta de 1960. São dois filmes de Claude Chabrol, Nas Garras do Vício (Le Beau Serge) e Os Primos e um de Jean-Luc Godard, Viver a Vida.

Duplas. Chabrol morreu em setembro passado, com mais de 80 anos (que havia completado em junho). Godard fez 80 anos em dezembro. Rivette está batendo nos 83. Esses "jovens" da nova onda tornaram-se anciãos sem perder o viço. As exceções foram Truffaut e Pierre Kast, que morreram prematuramente - e no mesmo dia -, um com 52 e outro com 54 anos. Céline e Julie baseia-se em histórias de Henry James. O filme desenrola-se numa estranha atmosfera que mistura sonho e realidade. São duas tramas, interpretadas por duas duplas de atrizes - Juliet Berto e Jane Labourier, Bulle Ogier e Marie-France Pisier. A primeira dupla interpreta uma mágica e uma bibliotecária que se encontram em Montmartre e dividem não apenas o apartamento, mas tudo - cama, noivo, roupas, identidade e imaginação. A outra dupla é formada pelas Mulheres Fantasmas de Paris, com quem Céline e Julie tropeçam em uma casa assombrada, junto com um homem e uma criança.

Para Rivette, trata-se, acima de tudo, de uma oportunidade para viajar pelo imaginário do próprio cinema. O filme é pleno de referências, outras nem tanto. É interessante voltar ao começo da carreira do autor. Em 1960, quando ele estreia Paris Nous Appartient, Chabrol, Truffaut e Alain Resnais já impu8seram a nouvelle vague (com Nas Garras do Vício, Os Incompreendidos/Les 400 Coups e Hiroshima, Meu Amor). O filme provocou desconcerto. Muito longo, ressentiu-se das dificuldades de produção - descontinuidade do elenco, diferentes tipos de película. Mas o essencial de Rivette já está todo lá - as armadilhas preparadas para o espectador; o complô, que não se sabe se é real ou ficcional; a ideia de uma sociedade secreta que envolve o mundo da arte (os atores).

Parte dessa mesma ideia ressurge em Out One, no mesmo ano de Céline e Julie. O filme é sobre um grupo de atores e trata das suas obsessões, na arte e nas vida. A versão reduzida dura quatro horas (quatro!); a longa, três vezes mais, 12 horas. A versão reduzida, feita a pedido dos distribuidores, Out One Spectre, fracassou na bilheteria. A longa fez um sucesso de estima, senão retumbante. Rivette sempre carregou a fama de ser um autor de público limitado. E é um adaptador, o que não é frequente na sua geração. Talvez seja um autor para o paladar de poucos, mas em 1965 foi ele quem produziu o maior escândalo da nouvelle vague. Rivette transpôs A Religiosa, de Diderot, para o cinema, depois de dirigir um versão do texto famoso no teatro. Considerado anticlerical, o filme com Anna Karina foi proibido na França e em diversos países. Quando chegou aos cinemas, o êxito foi grande - o maior de Rivette e um dos maiores da nova onda. A nudez de Emmanuelle Béart enche a tela em A Bela Intrigante, que o diretor adaptou de Balzac (Le Chef d"Oeuvre Inconnu), como Ne Touchez Pas la Hache se baseia em A Duquesa de Langeais e Céline e Julie em Henry James. Rivette é essencial.

CÉLINE E JULIE VÃO DE BARCO

(França)

Direção: Jacques Rivette

Distribuição: Platina

Preço: R$ 30

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.