River movie olha para as vozes e belezas da floresta

Crítica: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2012 | 03h09

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

Ex-secretário do Audiovisual, Sílvio Da-Rin defendeu em 2004 sua dissertação de mestrado na Escola de Comunicação da UFRJ. Ela foi publicada em livro como Espelho Partido - Tradição e Renovação do Documentário Cinematográfico. Um homem que se interessa pelo assunto não faria um documentário convencional. A par das implicações políticas e sociais do tema de Paralelo 10 - os povos da floresta, os contatos entre brancos e índios, o papel do sertanista -, esperava-se, por isso, do autor, um olhar novo. Embora Paralelo 10 seja linear, não particularmente inovador, Da-Rin não decepciona.

Brasileiro não gosta de índio. A frase é do ex-presidente Getúlio Vargas e aparece em Xingu, o longa de Cao Hamburger sobre a experiência dos irmãos Villas-Boas. No filme, Vargas a utiliza para conter os arroubos dos Villas-Boas, que querem extrair dele a demarcação do que se tornaria o Parque Nacional do Xingu. A frase não perdeu a serventia e tem sido usada - pelo produtor Fernando Meirelles, entre outros - para explicar por que o filme de Cao Hamburger, embora belo (e elogiado pelos críticos), mal conseguiuu chegar aos 300 mil espectadores. Com sorte, os estrategistas de mercado dizem que poderá chegar a 400 mil. É um número digno, mas decepcionante para um filme caro e com tantos atrativos de produção e elenco.

Como reagirá o público ao longa de Sílvio Da-Rin? Paralelo 10 acompanha o sertanista José Carlos Meirelles, que sobe o Rio Envira, no Acre, com o antropólogo Terri Aquino. Ambos se dirigem à fronteira do Peru, para ajudar os povos Madija e Ashaninka a encontrar melhores formas de se relacionar com grupos indígenas mais isolados (hostis?).

O filme é a história dessa viagem. Um river movie, mais que um road movie. Meirelles é um grande contador de histórias. Reflete sobre sua atividade e contesta a máxima atribuída ao Marechal Rondon - "Morrer, se preciso, matar nunca" - em seus contatos com os povos selvagens. Meirelles conta como um dia precisou sacar a arma. O filme é rico, complexo, fala de brancos e índios, de índios e índios. Tudo isso de ouvidos e olhos abertos para as vozes e belezas da floresta.

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