Rivane Neueschwander expõe sua arte econômica

Rivane Neueschwander, que inaugura nesta terça-feira à noite exposição na Galeria Camargo Vilaça, gosta de dizer que faz arte com coisas que não têm muito valor. "Gosto de observar o inobservável", diz, para explicar o fato de utilizar como matéria-prima materiais inusitados e pobres como poeira, sal, pimenta, restos de tomate, bolhas de sabão, lesmas, besouros, a sujeira carregada por sapatos anônimos... É como se ela adotasse o ponto de vista da criança, para quem tudo é uma grande e maravilhosa novidade.Em relação a essa comparação de sua obra com o universo infantil, a artista lembra-se de uma história que ouviu de um psicólogo que viu seu trabalho na última Bienal de São Paulo (uma obra em processo na forma de sala atapetada de um material colante, como uma fita adesiva, que capturou durante dois meses a poeira e a sujeira ambiente). Ao interromper o tratamento de um paciente autista, o médico - sabendo que essas crianças têm uma enorme dificuldade de aceitar mudanças - disse-lhe que poderia levar o que quisesse do consultório, como uma espécie de memória afetiva. Prontamente, o garoto pegou uma caixinha e guardou nela todo o pó que pôde recolher nos quatro cantos da sala.Essa história remete a outra característica bastante presente na obra de Rivane: a busca da economia. Em sua obra, tudo é aproveitável. Concretamente, a baba do besouro usado em um trabalho se transforma em outra peça. Mas isso também ocorre em termos conceituais. Se a exposição atual parece resumir um pouco a trajetória de Rivane desde que sua carreira despontou, em 1996, ela também mostra como os vários trabalhos estão muito amarrados conceitualmente. "Estou interessada em criar um universo em que as coisas dialoguem mais umas com as outras", explica.Cada vez mais integrada ao circuito internacional (ela fez mestrado em Londres e acaba de chegar de uma residência na Iaspis, renomada instituição sueca de arte contemporânea), Rivane vem refletindo em seu trabalho questões relacionadas com esses deslocamentos. Um exemplo dessa reflexão acerca de temas como correspondência, cartografia e deslocamento é a série Carta Faminta, um conjunto de "desenhos" feitos na verdade por lesmas que comeram esse papel.Há uma certa ironia nesse trabalho, com o intuito de evidenciar o fato de que a idéia de cartografia é um processo mental e não real. Após identificar um mapa o espectador se dá conta de que na verdade é um papel comido de maneira quase aleatória por esses repelentes bichinhos.A questão da autoria - um tema caro à contemporaneidade - é bastante explorada pela artista mineira. "Tenho pensado muito sobre essa questão e não quero ser tão responsável pelo trabalho", confessa. Ela evita ao máximo interferir na obra, eliminando referências de caráter autoral, mas na verdade o que ocorre é que a sutileza e a efemeridade acabam tornando-se sua marca registrada. O visitante que desconhecia sua obra pode até se surpreender com sua afirmação de que está tentando ficar "um pouco mais visível".Da mesma forma, não se sabe se o desenho de círculo impresso com cola no chão da galeria (e que permanece transparente até que alguém pise sobre ele) foi feito por Rivane pelo visitante ou se foi acidentalmente marcado pelas bacias que compõem um outro trabalho. O título "Andando em Círculos" só faz reforçar essa ironia.Aliás, o título é parte importante de sua criação artística. "Eles são importantes para que os trabalhos alcancem um outro significado, ajudam-me a conectar uma coisa com a outra e a levar o espectador para onde eu quero. A busca desse limite tênue entre o acaso e o controle da artista acabou levando Rivane a se interessar cada vez mais pelo trabalho em parceria, como a que fez com Cao Guimarães para realizar o filme que estará sendo exibido no mezanino da galeria.Rivane Neuenschwander - De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, até 14 horas. Galeria Camargo Vilaça. Rua Fradique Coutinho, 1.500, tel. 3032-7066. Até 1/12. Abertura às 20 horas.

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