Rivalidade familiar, crime e drogas em história da fronteira

Brilhante a estreia do ator Marco Ricca na direção com este longa Cabeça a Prêmio. Um filme de fronteira, bem à maneira de Marçal Aquino, que fornece o texto. Aquino já tivera seus Matadores filmado por Beto Brant e agora dá o ponto de partida para um filme de mesmo gênero, pelo menos em seus ingredientes e ambientação.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2010 | 00h00

Os irmãos Miro e Abílio (Otávio Muller e Fulvio Stefanini) são sócios na pecuária, no Pantanal, porém também estão envolvidos no tráfico de drogas. Não falta a presença da mulher fatal, muito bem interpretada por Alice Braga, que se envolve com um dos empregados do patrão. Vários ingredientes são mobilizados para dar clima e tensão à história: o sexo, a sede do dinheiro fácil, a embriaguez do poder - tudo isso mobiliza os personagens e os coloca à deriva, como presas fáceis de si mesmos.

O elenco é, em boa parte, responsável pelo êxito do projeto. Alice é a própria imagem da tentação. Fulvio passa muita verdade com sua figura de fazendeiro obeso, cheio de uma prepotência controlada. Não menos interessante é a atuação de Otávio Muller, no papel oposto, o do frustrado, com sua sexualidade recalcada e em busca de alguma realização. É um competidor feroz do irmão e o duelo de interpretações da dupla, com certeza, um dos pontos altos do filme.

Mas também é verdade que, muitas vezes, se tem um elenco de primeira e o resultado, do ponto de vista do cinema, parece frouxo. Não basta dispor dos ovos para fazer a omelete. É preciso ter noção de que o cinema é uma linguagem muito diferente da televisão e também do teatro. Nesse sentido, Ricca e sua equipe, mostram um domínio do ofício cinematográfico, com seus movimentos de câmera precisos e uma vivacidade que dão à história ritmo bastante envolvente.

A localização da trama numa região fronteiriça não se dá por razões turísticas. Ela tem função primordial. As próprias pessoas envolvidas estão numa fronteira de suas vidas, passando de uma região para outra. Da legalidade para o crime, do sol para a sombra, da contenção para a entrega da paixão. Há algo aí como um limite a ser transposto, e numa velocidade que lembra a da droga, da cocaína que sobe à cabeça e transforma alguém limitado em um super-homem de si mesmo. O que é um passo quase sem volta para a catástrofe, como se sabe. Cabeça a Prêmio é sintoma dessa mortífera vontade de potência contemporânea.

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