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Rivalidade e fidalguia

A F-1 de Howard em 'Rush' abriga o que não deixa de ser um sonho de heroísmo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2013 | 02h14

Num filme cheio de ação, com montagem acelerada e movimentos vertiginosos de câmera, o espectador que não prestar atenção arrisca-se a perder o melhor ou a minimizar uma coisa mínima, uma simples troca de olhares. Só que, no fundo, pode-se dizer que Ron Howard quis fazer Rush - No Limite da Emoção só por causa desse breve momento. O filme trata da épica rivalidade de dois pilotos durante o campeonato mundial de automobilismo de 1976 - o inglês James Hunt e o austríaco Niki Lauda. Lauda sofreu um acidente que o tirou das pistas. Hunt avançou no xadrez da Fórmula 1. A decisão foi levada para o Grand Prix do Japão, com Lauda de volta às pistas.

Foi um dia de tempestade e muito perigo na pista. Aficionados faziam, em todo o mundo, suas apostas. No último momento, na hora de entrar no cockpit, os oponentes trocam um olhar. Chris Hemsworth, o Thor, e Daniel Brühl. É um olhar de reconhecimento e entendimento. O público, um pouco porque se trata do ator de Thor, é induzido a torcer por Hunt e, de qualquer maneira, a disputa ocorreu há 37 anos e o resultado é mais que conhecido. Hunt venceu - foi seu único campeonato. O que ocorre nesse olhar é outra coisa, e é como se, na construção dramática de Howard e seu roteirista, Peter Morgan, o próprio Lauda torcesse por Hunt.

Uma coisa de western. Rivalidade com fidalguia. Lealdade. O reconhecimento do outro. Na capa deste Caderno 2 você já deve ter lido que Ron Howard fez um western das pistas. E pode-se supor que ele tinha em mente reconstituir, em outro contexto, a épica rivalidade dos personagens de John Wayne e James Stewart em O Homem Que Matou o Facínora, de John Ford. Wayne e Stewart amam a mesma mulher, Vera Miles. Ela escolhe o segundo, que vai ser morto num duelo pelo facínora Liberty Valance. Wayne, que no filme se chama Tom Doniphon, não apenas vai lá e mata Liberty Valance como permite que a fama do feito seja atribuída ao rival e constrói uma carreira política sobre isso.

Em Rush, Hunt e Lauda, Hemsworth e Brühl não disputam propriamente uma mulher. A lady deles é uma taça, ou um título, o de campeão mundial de F-1. Vão para a decisão e Lauda, ao contrário de John Wayne, não facilita a vida do adversário. Isso torna a vitória de James Hunt mais emocionante, mas o filme continua e, na sequência da história, ocorre o que não deixa de ser uma inversão. Lauda segue sua carreira vitoriosa. E Hunt? Nada interessava mais a John Ford do que a glória, a grandeza dos derrotados. São os mais belos heróis, no cinema pelo menos. Como Ford, que fez de O Homem Que Matou o Facínora um western sobre a degradação dos mitos - sobre o fim do Oeste -, Howard filma outra passagem, a da F-1 como atividade esportiva, fundada na paixão, para outra empresarial, baseada na razão.

Howard talvez nem saiba disso, mas fez o épico esportivo por excelência. Pense na rivalidade de Pelé e Garrincha, ou na de Pelé e Maradona. Existem sempre prós e contras para cada um, mas existe a fascinação por certos derrotados porque eles parecem ter vivido com mais plenitude e intensidade. Hunt morreu cedo, mas amou, bebeu, correu mais do que Lauda em sua vida, que segue até hoje. Como muitas afirmações, esta é discutível - quem pode medir a intensidade do amor, quem viveu (ou vive) mais? Mas a verdade é que personagens como Hunt embriagam o público por sua força vital.

O curioso, nisso tudo, é que, em 1976, quando Hunt e Lauda se opunham na pista, Ron Howard era um jovem ator de 22 anos. Havia filmado com grandes diretores como Vincente Minnelli (Papai Precisa Casar, aos 8 anos) e George Lucas (Loucuras de Verão, aos 18). E o que ele fazia naquele ano? Um western crepuscular de Don Siegel, O Último Pistoleiro, estrelado por ninguém menos que... John Wayne e James Stewart. Surpreende sua atração pelos mitos? Pelos códigos do western? Hunt/Hemsworth pode fazer piada do rosto derretido do adversário, mas ele parte para o pau em defesa do outro e do casamento. Howard, quando acerta, faz grandes filmes. Este é o melhor deles.

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