Ritual para encarnar Gandalf

Ator conta que criação de personagem envolveu vários dublês, até para cavalgar Ian McKellen,

PEDRO CAIADO, ESPECIAL PARA O ESTADO / LONDRES, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2012 | 02h09

Na continuação da entrevista, Ian McKellen fala como é interpretar Gandalf, a reação dos fãs e sobre seu método de trabalho.

Agora que Peter Jackson anunciou que O Hobbit será uma trilogia, você voltará a gravar mais cenas?

Não, só mais duas semanas em maio do ano que vem, graças a Deus. Meu coração chegou a parar quando soube. Não porque eu não queira me dedicar mais uma vez ao papel de Gandalf, mas acho que já me dediquei demais por enquanto. Eles decidiram realizar três filmes (seriam dois inicialmente), pois havia material suficiente.

É verdade que você tem um ritual antes de filmar?

Para interpretar Gandalf desta vez? Não mesmo. Eu vestia a roupa e ia em frente. Não sou daqueles atores que faz muita pesquisa na realidade. Não sei como eu faço. Até que gostaria de ter um método. O problema é que, se os outros atores estiverem usando o mesmo método, ficaria tudo confuso. O que acontece muito em peças de teatro é que o diretor introduz um método e nós seguimos. Acho que eu deixo acontecer ao acaso. Também treino muito em casa. Tenho ideias, leio bastante e espero que daqueles inúmeros ensaios saia algo que funcione. Eu sou sempre muito pessimista que não vamos conseguir fazer.

Você não segue o método de atuação de Stanislavski?

Stanislavski diz em um dos seus livros que, se tudo o que você tentar falhar e se você não conseguir achar algo apropriado no seu repertório de emoções para interpretar aquele personagem, encare o espelho e crie uma face até você achar o personagem. Eu costumava fazer isso na Rússia quando interpretava uma peça por duas semanas. Mas, diria que é o mesmo com Gandalf. Quando me colocam o nariz, o chapéu, a maquiagem, a voz vem... Todos no set olham e percebem o personagem. E é isso.

É verdade que você chorou durante as gravações de Hobbit e teve problemas com a tela azul?

Eu chorei realmente. E disse que aquele não era o motivo pelo qual eu havia me tornado ator. Infelizmente, o microfone estava ligado e todos ouviram o que eu disse. Para filmar os anões e Gandalf em uma cena, nós não podíamos estar no mesmo cenário por causa da diferença de tamanho. Eu tinha de atuar olhando para as fotos dos 13 anões com luzes em cada foto. A luz acendia a cada vez que um falava. E eles estavam em outro estúdio. É muito difícil fingir que você está acompanhado de 13 pessoas quando não está. Mas é atuação. Eu nunca trabalhei com Elijah Wood (Frodo) na mesma cena por exemplo, pois ele é menor que eu e por isso não podíamos estar na mesma cena. E agora foi o mesmo com Martin Freeman (Bilbo).

O Hobbit é um livro de J.R.R. Tolkien para crianças. Em termos de violência, esse é mais leve que O Senhor dos Anéis?

Bem, crianças adoram violência, não? E há muita violência no livro, assim como no filme, que termina com uma grande luta. Não sei, pois ainda não assisti, mas imaginamos um filme mais engraçado e Peter (Jackson) queria fazer um filme leve. Ele escalou alguns dos melhores comediantes, mas acredito que Peter sempre vai fazer a conexão com O Senhor dos Anéis, afinal, serão seis filmes no final.

As crianças o reconhecem na rua como Gandalf?

Não, não. As crianças são mais espertas que isso. Elas me falam: "Eu sei que você interpreta o Gandalf". Nunca uma criança veio a mim pensando que eu era o Gandalf, porque elas sabem que é tudo de mentira. Mas, às vezes, um adulto me para e pede: "Você me daria um autógrafo como Gandalf?" Não me pareço com Gandalf, as pessoas não me reconhecem como Gandalf na rua. Eu diria que o público é bastante respeitoso comigo.

Como é lutar com aquela enorme barba?

Eu não realizo muitas cenas de luta na realidade, pois é tudo muito bem filmado. Se o cabelo entrar nos meus olhos, temos de parar, tirar e torcer para que não se repita. Mas, nessas maravilhosas sequências de luta, provavelmente não sou eu ali na tela a maior parte das vezes. Sou somente um ator. Há muitos envolvidos no processo de criação de Gandalf. Tenho dublês de ação, de cavalgar etc. Se é um close do meu rosto, sou eu embaixo da maquiagem. Se você vir Gandalf em um cavalo, acredite, não sou eu. Um amigo, Roy Kinnear, morreu cavalgando em um filme, e outro quebrou o tornozelo. Esses são animais perigosos, não quero saber quão domesticados sejam. Mas Viggo Mortensen costumava dormir no cavalo, acho que ele levou um deles para a América. No geral, sou eu, mas se é uma filmagem de longe ou estou de costas para a câmera, não sou eu. Mas é Gandalf.

Quanto tempo leva para você se transformar em Gandolf?

Cerca de 45 minutos. Tomo um café, peço um sanduíche, tiro uma soneca e quando acordo levo um susto, pois já estou no personagem. Costumava durar muito mais tempo em Senhor dos Anéis, mas conseguimos diminuir esse tempo.

Você diria que o relacionamento que Gandalf tem com Bilbo é bem diferente daquele que tinha com Frodo?

Sim, e eu tive de ficar me lembrando que Bilbo não era o Frodo. Bilbo, no filme, é mais decidido e mais velho. Ele não vai a lugar nenhum. Ele é feliz e meio sozinho. "Vamos lá", diz Gandalf, "nós vamos partir para uma aventura". Ele está tentando trazer vida de volta para o Bilbo, pois ele está morrendo. Em Senhor dos Anéis, o herói não retorna, mas neste, sim. Essa é a diferença dos dois livros.

Por que você escolheu o papel de Gandalf? Há um motivo específico para a escolha de papéis?

Primeiro, eu me pergunto se é um filme que eu gostaria de ver. Se a resposta for não, então não faço. Também me pergunto se é um papel que eu teria dificuldade de interpretar. Se seria um papel que eu já tenha feito em outro roteiro. Se a resposta for sim, também não faço. E, então, tem outros fatores - quanto vou receber, quem será o diretor, quanto tempo teremos, quem são os outros atores envolvidos... Se leio um roteiro que gostaria de ver no cinema, então há chance. Mas, não sou um ator que lê vários livros à procura de papéis.

Como você gostaria de ser lembrado como ator e pessoa pela próximas gerações?

Percebo que atores são facilmente esquecidos. Você é tão bom quanto o seu último papel. Atores são para o presente. Não há essa ideia de que você possa preservar um personagem. Atuação não é para durar. Eu não tenho esse problema com longevidade (risos).

Ator britânico

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