Rito de passagem em excelente companhia

Crítica

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2010 | 00h00

Uma das melhores coisas do mundo é ver um bom filme. Aliás, um ótimo filme, como este, dirigido por Laís Bodanzky com o mesmo espírito jovem e humano que já havia imprimido aos anteriores Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade. Neste último, Laís havia tratado do tema da terceira idade; no primeiro, era a juventude e seu relacionamento com as drogas e a instituição psiquiátrica.

Agora, o assunto é a adolescência. Quer dizer, a passagem para a idade adulta, com tudo o que isso comporta de insegurança, sofrimento e, no final, crescimento. Já que sempre se cresce no processo, a não ser que se morra dele.

Na história do adolescente Mano (Francisco Miguez) há muitas barreiras a serem vencidas. Ele deve enfrentar as contingências de uma família separada, um irmão depressivo (Fiuk, ótimo), o desafio de perder a virgindade, um ambiente escolar hostil, essas coisas.

Por sorte, encontra no professor de violão (Paulo Vilhena) um conselheiro com ar de guru e no de física (Caio Blat) alguém de pensamento progressista. Mas, mesmo estes pontos de apoio ele vai perder em determinado momento.

Além do mais, deverá enfrentar o desafio de uma identidade paterna problemática e terá de encarar seus inimigos mais astutos - seus próprios preconceitos. Tudo isso fará de Mano um "herói" problemático. Quer dizer, um bom herói, no fundo. Nem todo-poderoso nem completamente desamparado. Simplesmente alguém, com armas ainda por afiar, disposto a viver a sua vida.

Essas são, vamos dizer assim, as ideias, inspiradas pelo livro Mano, de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto. Como ganham corpo em material cinematográfico? Por meio de opções ágeis, que tornam o filme flexível como um corpo jovem, escorreito como um texto escrito com gosto, visualmente atraente como uma tela bem pintada. Há cor, som e ritmo, mesmo porque muitas vezes a história se escande a partir do desejo de expressão musical de Mano e sua guitarra incipiente.

O filme muito deve também à montagem de Daniel Resende (o mesmo de Cidade de Deus), que nunca deixa o andamento cair. Isso quer dizer: ritmo, a impressão, quando acabamos de vê-lo, de que tudo passou rápido, talvez rápido demais, porque desejaríamos curti-lo ainda um pouquinho.

Outros acertos se dão por conta do elenco. Miguez é intenso; Fiuk, comovente, e toda a galera jovem se encontra muito bem afinada. Não perde o tom ao contracenar com os escolados Paulo Vilhena, Denise Fraga, Caio Blat, Zécarlos Machado e Gustavo Machado. Mas, verdade seja dita, esses atores experientes servem como extraordinário pano de fundo para a ação dos adolescentes, já que o filme é deles, a história e a emoção são deles. E, nesse ponto, a calibragem do filme é perfeita: encontra não apenas personagens de fácil identificação com os jovens mas uma linguagem descolada para a eles se dirigir, de maneira sensível e inteligente.

É para os jovens, mas não de maneira privativa. Pode também agradar aos adultos, que agradecem ao ver na tela a própria adolescência retratada de maneira tão aguda e emocionante. Afinal, mudam os cortes de cabelo, hábitos e os aparelhinhos eletrônicos, mas a adolescência, com tudo o que ela implica, é mais ou menos a mesma, geração após geração. A extraordinária Something, dos Beatles, faz essa ligação entre épocas diferentes.

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