Rita Elmôr brilha em "Estórias Roubadas"

Certa vez, uma astróloga disse à atriz Rita Elmôr que sua carreira iria deslanchar a partir do momento em que ela viesse para São Paulo. Os esotéricos dirão que os astros estavam certos. Os céticos, que o talento e a determinação da atriz foram recompensados. Rita contracena com Beatriz Segall na peça Estórias Roubadas, de Donald Margulies, sob direção de Marcos Caruso, sucesso de bilheteria no Teatro Renaissance. Com apenas 26 anos e pouquíssima experiência de palco, ela interpreta uma personagem ambicionada por qualquer atriz. E dá conta do recado.O convite veio graças à temporada paulistana do monólogo Que Mistérios Tem Clarice?, interpretado por Rita e dirigido por Luiz Arthur Nunes. "O Fauzi Arap assistiu ao espetáculo e recomendou-me a Beatriz", conta Rita. Bastam alguns minutos de conversa com essa "carioca nascida em São Paulo" para perceber que nada em sua vida ocorreu apenas por sorte, ainda que esta última, necessária em qualquer carreira, nunca a tenha abandonado.Filha única de um arquiteto e uma dona de casa, a paulistana Rita mudou com a família para o Rio com apenas 2 anos de idade. A decisão de tornar-se atriz foi tomada ainda na adolescência e, ao concluir o colegial, decidiu prestar vestibular para o curso de Artes Cênicas na UniRio. Mal havia iniciado a faculdade, em 1994, sua conhecida paixão pela escritora Clarice Lispector motivou o convite para apresentar uma leitura dramatizada de textos da autora de A Paixão Segundo GH no encerramento de um Congresso Internacional de Literatura das Américas na Universidade Federal do Rio de Janeiro."Fiquei muito impressionada com a intensa e emocionada reação das pessoas ao fim dessa leitura", lembra Rita. Olhos amendoados, rosto de traços exóticos, só então ela se deu conta de sua extrema semelhança com a escritora, o que lhe proporcionou um duplo prazer. "Quando eu era pequena, tinha a frustração de não parecer com ninguém", lembra. "Todo mundo era parecido com uma atriz, uma prima ou amiguinha; só eu nunca parecia com ninguém".A semelhança com Clarice foi um estímulo a mais e Rita mergulhou no universo da escritora preparando com calma e profundidade no trabalho que só ficaria pronto no fim do curso. "Ao me formar, decidi que não ficaria esperando um convite cair do céu", conta. Buscou apoios, convidou o diretor e produziu o espetáculo Que Mistérios Tem Clarice?, prolongamento e aperfeiçoamento da leitura dramática anterior.Na temporada paulistana do monólogo - responsável por ter entrado com o pé direito no circuito profissional do teatro - surgiu o convite para Estórias Roubadas. A temporada havia terminado quando ela foi chamada para conversar com Beatriz Segall. A essa altura, a temporada já havia terminado e Rita estava preparando um novo espetáculo, um antigo projeto sobre a relação da mulher contemporânea com o trabalho.A idéia surgiu da leitura do livro Mulher e Trabalho de Maria Silvia Camargo (Editora 34). "Atualmente, estar em evidência virou quase uma obrigação", observa. "A mulher atual sofre uma pressão muito grande para conciliar realização profissional e afetiva", observa. Em parceria com Mário Pirajibe - responsável pela criação do texto -, Rita colhia material para a peça a partir das idéias do livro e de entrevistas com mulheres. "Quero falar sobre esse conflito de desejar uma vida mais tranqüila, com mais qualidade afetiva e ter de realizar coisas o tempo todo".Teste - O novo projeto foi assunto da primeira conversa com Beatriz. "Ela me recebeu muito bem, mas avisou que estava testando outras atrizes". No fim da conversa, Beatriz entregou-lhe a peça para que a lesse. "Ao terminar a leitura, minha intuição dizia que o papel seria meu", afirma Rita. Ela se identificou fortemente com a personagem Liza, uma jovem que nutre profunda admiração por Ruth, a escritora consagrada interpretada por Beatriz.Estórias Roubadas mostra o nascimento de uma profunda amizade entre uma jovem aluna aspirante a romancista e sua mestra. Ruth exerce forte influência no desenvolvimento da carreira profissional de Liza, até que o primeiro romance da jovem as coloque em rota de colisão. "Eu tinha muitos pontos em comum com a personagem: ela escreve um primeiro livro de contos muito bem recebido pela crítica, quer ir além e escrever um romance, mas teme pela recepção desse seu segundo livro", comenta. "Além disso, associei a relação das duas à minha relação com Clarice Lispector".A intuição de Rita estava certa e, pouco depois, ela ensaiava sob direção de Marcos Caruso. "Adorei trabalhar com Caruso, porque ele fez um longo trabalho de mesa (discussão sobre o texto antes de iniciar os ensaios da movimentação em cena)", observa Rita. "A peça é um duelo de idéias, o que torna muito importante a discussão prévia para a interpretação das personagens". Rita não pensa em descansar sobre os louros nem pretende esperar um convite semelhante ao fim da temporada de Estórias Roubadas. "Quero produzir meu espetáculo sobre a mulher e o trabalho; tenho muita vontade de falar sobre isso no palco, porque tenho certeza de que essa angústia não é só minha".Estórias Roubadas. Drama. De Donald Margulies. Direção de Marcos Caruso. Duração: 2 horas (com 15 minutos de intervalo). Sexta, às 21 horas; sábado, às 17h30 e 21 horas; domingo, às 18 horas. R$ 30,00 e R$ 40,00 (sábado). Teatro Renaissance. Alameda Santos, 2.233, tel. 3069-2233. Até 2/7.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.