"Risco de Vida" revê o amor em tempos de aids

Os anos 80 prodigalizaram o individualismo, o modo de vida yuppie e a disseminação do vírus da aids. No último caso, o que se conhece são as tantas descrições dramáticas que mostravam ainda não existir para a doença medida de protelação possível. Como testemunha de sua época, o jornalista, dramaturgo e escritor Alberto Guzik fez um contundente relato no romance Risco de Vida, publicado em 1995. A obra vai agora para o palco, pelas mãos do médico e escritor Wolff Rothstein. Guzik gostou tanto do primeiro tratamento dado à adaptação, que aceitou dirigir a montagem. A peça, que estréia hoje, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), mantém o enfoque central do livro: uma relação homossexual masculina, que evolui em suas etapas amorosas, da paixão ao aprendizado do convívio, até o momento em que a doença se instala e impõe uma nova forma de encarar a vida."Em outras narrativas predomina a abordagem maniqueísta", diz Guzik, crítico teatral desde 1971 (trabalhou no Jornal da Tarde e atualmente é colaborador do Estado). "O que há de fundamental em Risco de Vida, tanto no romance quanto na adaptação, é que não se estabelecem padrões de bem e mal, de heróis e vítimas. Os discursos dos personagens são a favor da criação, e, conseqüentemente, da vida." Guzik lembra que, além da relação de um casal, tanto no livro como na peça, destaca-se também o percurso dramático do protagonista, Thomas, que deseja tornar-se escritor, começando por escrever a própria história.Segundo Rothstein, o livro pode ser comparado a uma epopéia, com "uma história que transcorre num tempo razoavelmente longo". "Quando pensei em adaptar o romance, minha primeira idéia já reduzia o livro à história dos dois personagens principais, Thomas, um crítico teatral de 38 anos, e Cláudio, bailarino e futuro coreógrafo de 20 e poucos anos", sublinha o adaptador.A peça começa quando os personagens se conhecem numa sauna, apaixonam-se e passam a viver juntos. A história de amor, no entanto, perde seu tom cotidiano, quando a aids se instala como realidade, afetando primeiramente amigos próximos e atingindo em seguida um dos parceiros protagonistas. Como pano de fundo, tem-se um panorama suave da política, dos costumes e da sociedade, assim como da cena teatral e jornalística da São Paulo dos anos 80.Homeopata e especializado em medicina psicossomática, Rothstein atuou num grupo hospitalar de prevenção e conscientização sobre aids, a partir de 1992. "Eu já pensava em colocar na forma teatral o drama das pessoas naquela época, em que não se tinha muito a oferecer nem técnica nem cientificamente. A única coisa que existia até o início da década de 90, para combater a doença e o preconceito, era a busca de qualidade de vida e da própria vida." "Quando li Risco de Vida, me identifiquei não só com o drama humano evocado pela relação dos dois personagens, mas também me interessei pelo lugar e pela época. Vivi na Consolação nessa época, mesmo cenário da história", diz Rothstein. Por intermédio de uma colega psicóloga, Rothstein foi apresentado a Guzik, em 96. Tornaram-se amigos e acabaram escrevendo a quatro mãos a peça 72 Horas. Como demanda uma produção cara, segundo os autores, o projeto ainda espera por patrocínio. Diferentemente do destino de Risco de Vida, que contou com a quarta parte do orçamento dada pelo Prêmio Estímulo Flávio Rangel 2001 (R$ 50 mil).Quando Rothstein apresentou a idéia de adaptação do livro, o autor de Risco de Vida e da peça Um Deus Cruel, de 1997, gostou. "Fiquei fascinado com o tipo de jogo que ele propunha, de não querer por o todo do livro no palco. Depois de ler a primeira versão, acabei me oferecendo para dirigir uma leitura dramática, em 99", lembra Guzik. Para o autor, a solução de focar a história na relação única e exclusivamente de Thomas e Cláudio "evitou que a adaptação competisse com o que o livro tem de amplo".Os dois personagens principais são vividos por Otávio Filho (Cláudio) e pelo próprio Rothstein (Thomas) e a produção conta, dentre outras, com a colaboração de Denise Weinberg. Guzik afirma que a montagem não pretende ser uma bandeira dos anos 80. Na cenografia de J.C. Serroni, três ambientes (quarto, sala e escritório) são unificados, o que quebra uma certa rigidez realista. "A peça é trabalhada no registro do realismo, mas não de maneira radical", atesta o diretor. Ainda segundo Guzik, Risco de Vida propõe um discurso que, pela franqueza, deve incomodar e causar polêmica. Ao mesmo tempo, oferece ao público uma história de amor. "É uma história de dois seres humanos, que por acaso são do mesmo sexo", atesta o diretor. "Mas não há dúvida que por vivermos num universo preconceituoso, em que o fanatismo está em crescimento acelerado, tratar de questões como homossexualidade, aids, de minorias, enfim, parece inconcebível", reflete. "Como sou cada vez mais contrário aos dogmas e fanatismos, confesso ter cada vez mais medo de gente que diz: ´A verdade é essa.´" Risco de Vida. Duração: 110 minutos. De quinta a sábado, às 20h30; domingo, às 19h30. R$ 10,00. Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3277-3611. Até 16/12. Estréia hoje para convidados.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.