Rir com os grandes

A Versátil resgata clássicos da comédia italiana por volta de 1960, de autores como Dino Risi e Pietro Germi

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2012 | 03h08

Dois clássicos da comédia italiana no começo dos anos 1960 estão sendo resgatados em DVD pela Versátil. Representam diferentes possibilidades do gênero. Uma Vida Difícil, de Dino Risi, com Alberto Sordi, de 1961, marca uma mudança na carreira do autor e também se inscreve num amplo movimento do cinema italiano da época. Divórcio à Italiana, de Pietro Germi, com Marcello Mastroianni, feito no mesmo ano, é comédia de costumes que realça a vocação moralista do autor como crítico social. Germi também estava mudando e o esquerdista romântico com o pé no neorrealismo (de tantos dramas sociais nos anos 1950) iria se afirmar como um polemista virulento, forçando os italianos a encarar o ridículo e a prepotência das próprias instituições.

Mastroianni é sublime como Fefè, que invoca o código de honra dos sicilianos para tentar resolver o problema que o consome. Louco de desejo por Steffania Sandrelli, ele planeja matar a mulher bigoduda (Daniela Rocca) para ficar com a jovem sexy. Para isso, só precisa comprovar o adultério de Daniela, porque a lei da Sicília é muito clara e o marido chifrudo pode lavar a honra com sangue. O problema é que Daniela, além de carola, é a mais fiel das mulheres e Fefè terá de induzi-la ao adultério que, consumado, abrirá um novo capítulo do qual ele não se apercebe (mas o espectador, sim, no desfecho irônico).

Narrado em admirável, opressivo preto e branco, o filme foi seguido por Seduzida e Abandonada, também com Steffania Sandreli e de novo investindo contra os costumes da Sicília, onde reinavam a Máfia e o obscurantismo. Germi virou o mais provocativo autor de comédias da Itália, recebendo, debaixo de vaias, a Palma de Ouro por Signore e Signori, Confusões à Italiana, em 1966. Bem antes disso, Divórcio recebeu o Oscar de roteiro, no ano em que Oito e Meio, de Federico Fellini, foi o melhor filme estrangeiro para a Academia de Hollywood. Como Fefè, Mastroianni provou a versatilidade de seu registro (leia texto abaixo).

Dino Risi já havia colhido grandes êxitos populares com Pão, Amor e... e Pobres mas Belas, mas foi em Uma Vida Difícil que iniciou a vertente tragicômica que o levou a ser chamado de 'Michelangelo Antonioni do humor', pela solidão e incomunicabilidade de personagens que identificava como 'monstros' do cotidiano (ou representações do homem comum peninsular). Esse elemento tragicômico dá o tom da interpretação de Alberto Sordi, que já havia sido um dos vitelloni de Fellini (em Os Boas Vidas, de 1953). Mas Uma Vida Difícil também retrata um momento particular da história italiana, o período do pós-guerra, em que elementos da resistência e herdeiros do fascismo se digladiavam pelo poder, configurando uma disputa que iria se refletir pelos anos seguintes na sociedade italiana.

Grandes filmes retrataram o clima da época, o armistício Badoglio, a rejeição do fascismo e o alinhamento da Itália com os aliados, e também as contradições sociais e políticas do país que emergia da guerra, abrigando, qual um esforço de ressurreição, o movimento que se tornou conhecido como neorrealismo. Risi aborda tudo isso por meio de Sílvio Magnozzi (Sordi). Ex-membro da resistência e redator de um jornal de esquerda, ele tenta manter os princípios num mundo que não é mais o seu. A cena da refeição é magnífica. Para que não sejam 13 à mesa, os burgueses atraem o infeliz que, famélico, devora tudo. Risi foi acusado de cinismo, mas seu cinismo acusa uma atitude filosófica, como o moralismo de Germi também não deve ser visto como pejorativo.

Risi veio da medicina - e foi psicanalista antes de optar pelo cinema. As mudanças na vida de Magnozzi prenunciam o Vittorio Gassman de Aquele Que Sabe Viver (Il Sorpasso), no ano seguinte. Criticadas, nos anos 1950, como deturpação popularesca do neorrealismo, as comédias italianas também iriam se firmar como gênero, consagrando autores como Mario Monicelli e Ettore Scola, além de Risi e Comencini. Em 1974, Germi morreu e Monicelli passou pela câmera o roteiro que ele havia deixado pronto, iniciando a série Meus Caros Amigos. Foram anos de risos e lágrimas. Com a grande comédia italiana, o espectador, como diz Jean Tulard no Dicionário de Cinema, não se aborrece jamais.

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