Rio vê 36 obras de Aleijadinho

Será aberta nessa quarta para convidados e quinta para o público, no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, uma exposição que carrega consigo um tanto de polêmica. Trata-se de Aleijadinho - O que Vemos e o que Sabemos, uma mostra com 36 obras atribuídas a Antônio Francisco Lisboa (1730-1814), o maior artista do barroco brasileiro.Todas as obras são de propriedade de uma única pessoa, o colecionador Renato Whitaker, de São Paulo, e só o seguro delas está fixado em US$ 1,7 milhão. Recentemente, uma das peças expostas (uma imagem policromada de 90 centímetros representando Nossa Senhora do Rosário) foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A obra foi a primeira de uma coleção que começou há 20 anos, quando Whitaker a comprou do empresário mineiro Plácido Gutierrez.A polêmica que a exposição traz nasceu há seis meses, quando o colecionador negou o empréstimo de duas peças à Mostra do Redescobrimento, por desentendimentos com a então curadora da exposição, a historiadora Myriam Andrade de Oliveira. Em desagravo, montou uma mostra com 25 peças no restaurante Antiquarius, em São Paulo. Com a saída de Myriam, Whitaker voltou a ceder obras ao módulo Barroco da mostra, que reabriu hoje no Rio.Agora, no catálogo de sua exposição, o colecionador volta à carga contra a historiadora, citando trecho da tese da estudiosa em que ela chega a contestar a autoria dos Profetas do Aleijadinho, conjunto de imagens situado na cidade mineira de Congonhas do Campo. E também manifesta-se contra o parecer de Angelo Oswaldo de Araújo Santos, conselheiro do Iphan, que pediu "respeito e zelo" pela obra que o instituto acaba de tombar, de propriedade de Whitaker."O colecionador não hesitou em exibi-la, recentemente, em São Paulo, de maneira inconveniente e em local inadequado", ponderou Santos. "Minhas peças saíram intactas do restaurante, enquanto que 35 das obras emprestadas à Mostra do Redescobrimento tiveram problemas de manutenção", respondeu Whitaker.Ele está em pé-de-guerra contra os especialistas em barroco no Brasil, que, segundo Whitaker mantêm uma espécie de "reserva de mercado" da avaliação técnica. O colecionador lidera campanha junto ao Ministério da Cultura e ao Iphan por uma catalogação definitiva da obra de Aleijadinho no Brasil, para impedir o que chama de "desmandos" críticos.Um desses exemplos recentes estaria no "rebaixamento" de uma peça doada ao Masp, uma imagem de São Francisco de Paula. A historiadora Lygia Martins Costa constatou que não se tratava de um Aleijadinho, e o Ministério da Cultura desautorizou o valor pretendido pela empresa doadora para renúncia fiscal. Com o laudo, o preço da obra caiu de US$ 350 mil para cerca de US$ 60 mil.O fato é que os interesses de colecionadores, museus, historiadores e empresas são bem distintos, e a catalogação poderia ajudar a resolver as querelas. Existem hoje em torno de 150 obras conhecidas do Aleijadinho no País (menos de 10% do que ele produziu, estima-se).Segundo Angelo Oswaldo de Araújo Santos, uma das primeiras grandes tarefas a que se entregou o Iphan, nos seus primórdios, foi a valorização da obra do Aleijadinho. "Já em 1919, Mário de Andrade chamara a atenção para a importância desse legado no quadro da herança cultural brasileira", escreveu Santos, no processo de tombamento da escultura de Whitaker.No Rio de Janeiro, por exemplo, há pouquíssimas imagens do artista. Uma das obras conhecidas no Rio, uma Sant´Anna, pertence a Leda do Nascimento Brito. Mesmo em São Paulo, há poucas obras. A coleção Beatriz e Mário Pimenta Camargo tem três imagens atribuídas ao Aleijadinho. A coleção João Marino tem outras três peças. E o Museu de Arte sacra guarda mais duas obras.Entre os 36 Aleijadinhos que Whitaker está expondo, há duas obras tombadas (uma Sant´Anna Mestra e uma Nossa Senhora do Rosário), além de um Cristo da Paciência em estudo de tombamento e duas Santas Luzias de períodos distintos da obra do artista.Curador de sua própria coleção, Whitaker pretende seguir com a mostra para o Museu do Chiado, em Lisboa, logo após a exposição no Museu Nacional de Belas Artes. E também aproveita para alfinetar a cenografia do módulo Barroco - embora diga que goste do trabalho de Bia Lessa."Minha mostra está muito bem-emoldurada no Museu de Belas Artes", considera Whitaker. "No final do saguão, está a tela Primeira Missa no Brasil, de Victor Meirelles; no centro, o Descanso do Modelo, de Almeida Júnior; e mais adiante está Juventude, de Eliseu Visconti", descreve. "Existe cenário melhor?"À parte o fato de estar "legislando em causa própria", o colecionador de fato tem razão em algumas de suas ponderações. A tese de Myriam Ribeiro de Oliveira sobre os profetas do Aleijadinho, lançada em 1985 no livro Aleijadinho - Passos e Profetas (Editora Itatiaia) é controversa. Tivesse sido lida com atenção na época do seu lançamento, abalaria estruturas.Segundo o livro, o mais importante conjunto do mestre mineiro tem partes esculturais (mãos, rostos, cabeças, pés) que não são do Aleijadinho, mas de discípulos dele. Algo como dizer que o batistério de Florença não é de Giotto, mas dos operários que o construíram.Redescobrimento - O discurso adotado é de que a exposição é "inédita" e, portanto, oferece obras que os paulistas não puderam apreciar na Mostra do Redescobrimento. Mas o fato é que o Barroco que foi aberto nesta segunda-feira, no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, é a "exposição que foi possível ser feita".A nova curadora da mostra, Mari Marino, substituiu a historiadora Myriam Andrade de Oliveira em caráter emergencial e teve pouco mais de um mês para montar a exposição, que conta com cerca de 400 obras. Diretora do Museu de Arte Sacra de São Paulo e colecionadora privada, Mari recebeu uma incumbência quase impossível.Quando deixou a Mostra do Redescobrimento, Myriam Oliveira devolveu todas as peças que tomara emprestadas para montar sua exposição, a de maior sucesso dentro do Redescobrimento. Isso levou a dois adiamentos sucessivos da abertura da exposição do Rio. Os colecionadores e museus de Minas Gerais, contatados pela nova curadora, recusaram-se a emprestar obras - em parte, porque 35 imagens que estiveram em São Paulo sofreram pequenos danos.Mari Marino saiu-se com o que foi possível, recorrendo principalmente aos colecionadores de outros Estados - em especial São Paulo. Como é diretora do Museu de Arte Sacra, levou boa parte das obras do seu próprio acervo.A exposição montada destaca 60 imagens de São Sebastião, símbolo da devoção popular do brasileiro, também padroeiro e padrinho da cidade, além de obras de Mestre Valentim, principal nome do Barroco oitocentista no Estado. Há também duas imagens de Nossa Senhora das Dores, de autoria do Aleijadinho. Uma delas pertencente ao Banco Itaú (nunca exposta ao público antes, segundo os organizadores), e a outra, ao acervo do Museu de Arte Sacra.A direção da Mostra do Redescobrimento acentua a todo momento que há muitas obras que "São Paulo não pode ver" (como 171 peças de ouro e prata), mas o prejuízo é evidente, embora haja de fato algumas vantagens. Por exemplo: o colecionador Renato Whitaker, brigado com Myriam de Oliveira, voltou a colaborar com a exposição. Mas, como já tinha agendada uma exposição dos seus Aleijadinhos no próprio Museu Nacional de Belas Artes, emprestou apenas oito imagens de um outro grande artista barroco, o Mestre Piranga.A cenografia de Bia Lessa foi mantida, mas a diretora teve de trabalhar freneticamente para recompô-la em tempo hábil. Como as dimensões do Museu Nacional de Belas Artes são diferentes do prédio da Bienal, a "catedral" de Bia Lessa (que em São Paulo tinha 14 metros altura), no MNBA terá 7. As flores de papel crepon amarelo e roxo continuam.A exposição abriu hoje para o público. O Museu Nacional de Belas Artes funciona de terça a domingo, das 10h às 18h, e fica na avenida Rio Branco, 199. Os telefones são (21) 240-0068 e 240- 9869.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.