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Rio sem Brasília

Não há repressão ao crime que salve uma cidade prostrada por décadas de cleptocracia

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

02 Outubro 2017 | 03h00

Faltavam alguns minutos para o meio-dia quando meu táxi parou na porta da creche próxima à Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. A criança foi depositada em segurança dentro da casa. Segui no táxi e, em alguns minutos, um grupo de mães, recebia, via WhatsApp, o vídeo com cenas de pânico após disparos de fuzil na frente da creche, no exato ponto que tínhamos parado. Um policial seguia de carro, atirando, um homem desarmado numa pequena moto. O homem, me contou depois uma testemunha, tinha acabado de roubar um cliente num posto de gasolina ali perto. Nenhuma bala perdida atingiu as crianças, mas, à noite, quando ela começou a falar sobre o incidente, ficaram claros o medo e a confusão experimentados pela menina, e conversas semelhantes devem ter se repetido entre outras crianças e seus pais.

Sei que a experiência, inédita para elas, no bairro afluente da Lagoa, é a rotina para crianças nas escolas da Rocinha, da Maré, do Alemão e tantas outras comunidades vivendo o terror do fogo cruzado entre a polícia e o tráfico. Fui criada no Flamengo, enfrentando o eventual trombadinha e atravessando o faroeste das obras do metrô a pé, a caminho da escola. Cheguei a me atracar com um ladrão na rua, um impulso insensato, mas num tempo em que não havia armas automáticas, crime organizado e a droga dos meninos de rua era cola. Mesmo tendo reflexos de quem enfrentou rápidos assaltos, a pé, de ônibus e de carro, nada me preparou para a cidade que acabo de reencontrar.

O Rio inseguro que o brizolismo começou a dilapidar e Sérgio Cabral acabou de saquear é um fantasma emaciado por trás da beleza natural que continua a nos cegar e atrair turistas. Gostaria de encher uma arca com meus parentes e amigos e aportar em algum lugar em que pudesse abandonar o hábito angustiante de monitorar, de Manhattan, os tiroteios e tomar a lista de presença dos meus descendentes por WhatsApp.

Enquanto isso não é possível, e seguimos escapando de balas intencionais e perdidas, admiro a Lagoa Rodrigo de Freitas e penso em Pittsburgh.

Agora a terceira cidade mais segura dos EUA, na Pensilvânia, Pittsburgh questionava sua viabilidade econômica, nos anos 1980. Pittsburgh tinha sido uma potência de aço e carvão. Com o declínio industrial e alto desemprego, virou exemplo de decadência urbana provocada por deslocamento econômico. Hoje, gigantes como Google e GE investem pesado na cidade, que se reinventou para e economia do século 21 e abandonou a dependência de commodities, não ficou sentada à espera de um Pré-Sal. O centro de Pittsburgh acaba de ser votado o mais bem recuperado do país e a cidade atrai admiração por uma política municipal de energia limpa. 

Sem uma fração da beleza natural do Rio de Janeiro, Pittsburgh usou a imaginação e também algo que o Rio tem como herança de tempos melhores: duas universidades entre as mais prestigiadas do País. Além disso, Pittsburgh, como o Rio, tinha algumas instituições culturais de peso e parques. Mas a cidade da Pensilvânia tem crime organizado, perguntará o leitor? Tem uma tradição de famílias da Máfia, mas não enfrentou o nível de violência que vemos no Rio. Por falar em famílias, Pittsburgh se beneficiou de grandes fortunas como Carnegie, Frick e Heinz, gente com visão que investiu na cidade.

Ouço o ministro da Defesa Raul Jungmann dizer na TV que o Rio vai ser um laboratório de combate à violência. Que os ventos soprem a favor, ministro. Mas não há repressão ao crime que salve uma cidade prostrada por décadas de cleptocracia e declínio econômico. Pittsburgh foi salva, não por Washington, mas por imaginação do governo local e da elite que não abandonaram a classe trabalhadora. O Rio ainda depende de Brasília, mas precisa imaginar sua emancipação.

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