Rio Preto faz mostra tímida de teatro

A 4.ª edição internacional do Festival de Teatro de São José do Rio Preto, iniciada na quinta-feira, com encerramento previsto para domingo, escolheu como tema discutir a identidade americana. Mas, nesta edição, há uma evidente distância entre o desejo de "revelar Américas" e a presença de apenas três atrações internacionais. E de países como Japão, Colômbia e Estados Unidos. Faltou América na tímida programação internacional. O desejo de ver mais "Américas" ampliou-se diante da qualidade do colombiano Mosca uma releitura de Tito Andrônico, uma das sangrentas tragédias de Shakespeare. Há algo de farsesco nessa releitura da tragédia, sem perda de tensão em cenas de brilhante teatralidade como a luta de esgrima na qual os atores usam apenas os punhos dos floretes, sem as lâminas. O som do encontro de metais é feito pelo contra-regra, à vista do público. Foi bem mais árdua a relação entre o público e o espetáculo japonês Hamlet Clone, montagem da tragédia de Shakespeare, sob inspiração da releitura de Heiner Müller, Hamlet Máquina, que terá uma única apresentação hoje, em São Paulo, no Sesc Vila Mariana. O embate entre tradição e realidade está presente muito claramente nas imagens de Hamlet Clone. O que restou da tradição é risível - um samurai trapalhão que acaba matando a si mesmo sem querer, por não saber manusear sua adaga. Mas, se algumas imagens são fortes, e intrigantes, o pouco da dramaturgia traduzida soou discursiva e banal. Clothes Calls and Cunnings Stunts, performance da norte-americana Pat Oleszko, encerra a programação internacional com apresentações no sábado e no domingo. Se o peso recaiu mesmo sobre a programação nacional, esta não decepcionou. Além de espetáculos já testados como Agreste e Shi-Zen, 7 Cuias, destaques no primeiro fim de semana, o festival propicia à cidade ver os quatro espetáculos da transposição cênica de Os Sertões, de José Celso Martinez Correa. O evento realizado em parceria pelo Sesc e pela Secretaria Municipal de Cultura parece ainda sofrer uma certa crise de identidade, abrigando espetáculos amadores na programação, como Tio Patinhas e o Teatro do Comprimido, da Cia das Tripas ao Coração, de Votuporanga (SP). Nada contra o teatro amador, mas quando alguém se propõe a fazer do teatro seu ofício, tem que buscar aprimoramento. E um festival que se propõe a atuar em rede e "discutir identidade híbrida", tem que refletir sobre a identidade buscada. Eventos fazem a arte circular nacionalmente - Um movimento importante consolidou-se no Festival Internacional de São José do Rio Preto - a criação do Núcleo dos Festivais Internacionais de Teatro. O núcleo reúne a direção de alguns dos mais importantes festivais do País: de Londrina (Filo), de Belo Horizonte (FIT), do Rio de Janeiro (Riocenacontemporânea) e de Porto Alegre (PortoAlegre em Cena). "A cada vez que terminamos um edição, não sabemos se haverá a próxima", diz Jorge Vermelho, diretor do festival de Rio Preto. Ainda não ocorreu, no Brasil, a iniciativa de mapear os festivais de teatro realmente importantes, para garantir um orçamento anual. Isso é especialmente grave nos eventos internacionais, porque as grandes companhias européias têm agenda por períodos de dois a três anos. Algumas iniciativas estão sendo tomadas, pelo núcleo, para reforçar suas reivindicações. "Uma pesquisa já começou a ser feita, em Porto Alegre, reunindo dados de todos esses festivais, para, assim, mostrar com precisão a contribuição dos festivais na circulação de espetáculos nacionais," completou.

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