Rio Preto: armazém abre as portas do fit

"Por que não transformaram isso aqui em uma baladinha?", perguntou a adolescente à amiga ao lado. Nas arquibancadas, mais de 5.000 pessoas ainda estavam aplaudindo. Bandejas em punho, os ambulantes passavam a vender pipoca, cerveja e maçã do amor. Por uma noite, o teatro pareceu ter a capacidade de ser tão popular como um show de rock.

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2010 | 00h00

Concebido especialmente para o Festival Internacional de São José do Rio Preto, o espetáculo Antes, da Armazém Companhia de Teatro abriu anteontem a 10.ª edição do evento. Foi a primeira vez que o festival convidou um grupo a criar uma obra original para a programação, que movimenta R$ 2 milhões e deve reunir, até o dia 24, 39 montagens nacionais e estrangeiras.

Em uma imensa estrutura montada ao ar livre, o público pôde acompanhar o novo trabalho da companhia londrinense radicada no Rio. Dona de uma incensada trajetória, a Armazém arriscou-se na preparação de uma "peça-relâmpago", montada em pouco mais de dois meses. "A ideia era produzir um espetáculo que tivesse um vínculo com a curadoria deste ano, que questiona as estruturas narrativas convencionais", comenta o diretor Paulo de Moraes.

À beira da represa municipal, o cenário construído reproduzia as ruínas de um teatro. A narrativa que se desenrola nesse espaço, supostamente abandonado e invadido pela areia, põe em relevo o espectro de um ator morto. Na ânsia de retomar a vida do velho palco, essa figura invoca uma tempestade e leva três personagens a buscar abrigo no edifício.

Eis o mote para que esses seres desfilem aspectos de suas vidas e se apresentem, cada qual à sua maneira, não exatamente como indivíduos, mas "como facetas do tal espectro do ator", conforme explica Moraes. Na encenação, é constante o jogo de imagens e palavras - muitas delas tomadas de empréstimo de grandes textos do teatro ocidental.

Assim como no trabalho anterior da companhia, a dramaturgia de Antes resulta do encontro entre Paulo de Moraes e Mauricio Mendonça. O caminho trilhado aqui, porém, em nada se assemelha ao do recente Inveja dos Anjos. Se na montagem de 2008 o texto está calcado nos diálogos, agora a possibilidade de encontro rareia: os personagens pouco se relacionam com o outro e são os monólogos que imperam.

De acordo com o diretor, Antes não será reapresentada. Mas parte de seu processo de criação deve deixar rastros no próximo espetáculo da Armazém, ainda sem título definido, que estreia em outubro no Rio.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.