Rio prepara-se para invasão surrealista

Os surrealistas estão chegando. Eles aportam no Rio de Janeiro em agosto, numa megaexposição que ocupará todo o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) com palestras, filmes e obras de arte, revistas e livros que marcaram esse movimento que surgiu nos anos 20 e influenciou toda a cultura do século 20. A iniciativa é do ex-adido cultural da França no Rio, Romaric Suger Büel, que já trouxe ao Brasil exposições de Monet (em 1997) e de Picasso (em 1999). "Não estamos comemorando nenhuma data específica, mas sim o maior evento surrealista já produzido no Brasil e talvez na América Latina."Esta semana, a diretora do Museu de Arte Moderna de Estrasburgo e curadora internacional da mostra, Nadine Lehni, veio ao Rio conhecer o CCBB e negociar com colecionadores e museus brasileiros o empréstimo de obras. Nadine ironizou o fato de o maior banco brasileiro (estatal, inclusive) promover a exposição. "Não deixa de ser engraçado trazer a um banco obras de pessoas que eram revolucionárias marxistas e até ligadas aos partidos comunistas", lembrou ela. "Mas é verdade também que o CCBB atende à idéia polivalente do surrealismo e está aberto a todo tipo de público."Por intermédio de Nadine, os organizadores têm promessas de empréstimo do Centro Georges Pompidou (Beaubourb), Museu Picasso e Museu de Arte Moderna da França (todos em Paris), dos museus de Grenoble, Marselha, Lyon e Nantes e do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Do Brasil, serão emprestadas obras do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e da Chácara do Céu, no Rio. Colecionadores particulares também cederão seu acervo, entre eles, Gilberto Chateubriand. Por enquanto, está confirmada a vinda de Paysage Noir (óleo sobre tela de Max Ernst), La Cohorte Invincible (de George de Chicico), La Goufre Argente (de René Magritte), Porte-Bouteilles (ready made de Marcel Duchamp) e Figure devant la Lune (de Juan Miró)."O Beaubourg já prometeu também uma cópia de L´Age d´Or, o filme manifesto de Luiz Buñuel. Pretendemos ainda trazer algumas revistas e livros, que se situam entre a obra de arte e o produto gráfico", prometeu Büel. Ele garante que trará itens fundamentais do movimento, que possibilitarão sua compreensão pelo público brasileiro.Nadine se encontrou também com a artista plástica Denise Mattar, que coordena a curadoria brasileira e para decidir o que e como mostrar. "Ainda não fechamos o lote de obras, mas pretendemos realizar uma abordagem temática. É complicado mostrar, por meio de obras específicas, o impacto e a importância do surrealismo, um movimento que se estendeu à própria maneira de viver e fazer arte", explicou Nadine. "Queremos confrontar as propostas do surrealismo com as ocorridas na América Latina e no Brasil desde então. Afinal, se esse movimento surgiu na França, quase todos os seus artistas viveram, em algum momento, fora de lá, especialmente nas Américas."Desligamento da realidade - O marco inicial é o Manifesto Surrealista, escrito pelo poeta André Breton em 1924, propondo uma arte que abrangia poesia, teatro, fotografia, cinema, pintura, escultura, desenho e, às vezes, a combinação de duas ou mais delas. Ele prega a criação desligada da realidade imediata e capaz de ultrapassar fronteiras políticas ou estéticas. Amor, sonho, poesia, revolução e internacionalização eram os preceitos a serem seguidos e alguns artistas radicalizaram esses preceitos.Os anos 20, época em que o jazz nascia nos Estado Unidos o cinema firmava-se como indústria e as idéias de Sigmund Freud o pai da psicanálise se popularizavam, foram propícios ao surrealismo. A primeira década entre as duas guerras mundiais apontava para uma euforia otimista, em que cabia todo tipo de conceito ou ideologia. Para os estudiosos de história da arte, difícil é saber o que foi causa e efeito, mas as conseqüências desse período permanecem. "Hoje qualquer pessoa fala de inconsciente, de psicanálise, da mistura de vida e arte", lembra Büel. "A produção artística e cultural dos países periféricos, ignorada até então, hoje faz parte do acervo das instituições mais tradicionais, como o próprio Louvre", completa Nadine.Apesar de a influência surrealista perdurar, as curadoras decidiram só trazer obras do período que vai de 1924 a 1945. "Era preciso estabelecer um começo e um fim para fecharmos em 250 obras. Escolhemos do ano de publicação do Manifesto ao fim da 2.ª Guerra Mundial porque foi quando os artistas que haviam se exilado na América voltaram à Europa e cada um seguiu seu caminho", justifica Romaric Büel.Curiosamente, o surrealismo não foi marcante no Brasil. Büel lembra que houve artistas influenciados pelo movimento, como Cícero Dias, Aberto Guignard e Ismael Nery. Alguns brasileiros, como a artista plástica Maria Martins, conviveram intimamente com os principais surrealistas. Ela era mulher do embaixador brasileiro nos Estados Unidos e passou os anos 40 entre Washington e Nova York, época em que Breton, Duchamp e Ernst haviam se exilado naquele país. Tal como aconteceu em outras exposições, haverá um setor dedicado a esses brasileiros e uma sala só para Maria."Mas aqui, a semana modernista de 1922 , com sua proposta nacionalista, refutou as teses surrealistas", sugere Büel. "Para mim, quem liderou essa recusa foi Mário de Andrade, um dos mentores do modernismo brasileiro. Tenho essa teoria bem clara, mas ainda estou pesquisando para encontrar provas que a fundamentem", conclui Denise Mattar.

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