Rio festeja os 90 anos de Mário Lago

Segunda-feira tem festa em Copacabana, na zona sul do Rio. Um de seus moradores mais ilustres, Mário Lago, completa 90 anos e a comemoração terá palco armado em frente de sua casa, no Posto 6. Meio mundo da música, televisão e política promete aparecer e, a se repetir o sucesso do lançamento da biografia dele, há cerca de cinco anos, no Centro Cultural da Light, o trânsito vai parar. Na ocasião, mais de 3 mil pessoas foram pegar seu autógrafo. Agora, a festa é maior, pois Mário Lago é unanimidade. Não há quem negue sua importância na música (é autor de Amélia, Aurora e Nada Além, três clássicos), na literatura (escreveu 11 livros e rascunha o 12.º) e nas artes dramáticas (ainda há pouco, reviveu o personagem Molina, na novela O Clone, da Rede Globo).O próprio Mário não parece preocupado com a festa, pois não dá importância à data redonda. Ele sai pouco de casa, porque a saúde não lhe permite muita movimentação, mas vive cercado dos cinco filhos, nove netos e três bisnetos, além do vasto grupo de amigos deles. Mas não ignora sua importância nem finge modéstia. ?Realmente, eu tenho memória, pois vi muita coisa. Passei pelo tenentismo, as Revoluções de 1930 e 1932, o Estado Novo e a redemocratização, de 1937 a 1945, e o golpe de 1964. O Estado Novo era pior porque não havia parlamento?, enumera ele.Impressionante é que Lago esteve declaradamente à esquerda, não transigiu em suas posições, mas sempre conciliou e foi respeitado por quem estava no centro ou em posições radicais de qualquer lado. ?Somos todos burgueses, de esquerda ou de direita, não há como negar?, explica. Nem sempre suas idéias prevaleceram e, às vezes, pagou caro por isso, com prisões e desemprego, mas não guarda mágoas ou se arrepende. ?No que dependeu de mim, as coisas sempre deram certo, mas não posso me culpar pelo que está na mão dos outros. E depois, quando escolhi esse caminho sabia o que ia encontrar. Quem sai na chuva quer se molhar.?Teatro ? A política nunca prejudicou a arte. Ele começou em 1933, como autor de teatro, o mais jovem do Rio, com a revista Flores à Cunha (referência ao correligionário de Vargas), estrelada por Araci Cortes. Foram mais de 20 peças. A última delas é dos anos 60, ?Foru? Quatro Tiradentes na Conjuração Baiana, devidamente censurada e nunca encenada. Foi também galã, da companhia de Joracy Camargo, mas não considera sua passagem pelos palcos relevante. ?Não teria feito falta se não tivesse acontecido?, comenta Lago. Já na televisão ele sabe de sua importância. Esteve na telinha desde o ínicio, mas tornou-se conhecido nacionalmente quando estreou na TV Globo, em O Sheik de Agadir, em 1968. Daí em diante foram quase duas dezenas de personagens, sempre marcantes. ?O meu preferido era o Alberico, de Dancing Days (novela de 1978, em que ele era um falso aristocrata de Copacabana, adorável e irresponsável).?Mário Lago não abre mão de televisão e, por isso, no último ano, mesmo praticamente proibido pelo médico, fez o especial Enquanto a Noite não Vem, e uma participação na novela O Clone, revivendo o personagem dr. Molina, de Barriga de Aluguel, de dez anos atrás. ?Eu gosto de novela?, confessa. ?Não é só gravar, não. Gosto de estar no meio da confusão, do ambiente, da fofoca do estúdio. Aliás, sempre gostei de trabalhar, de estar em atividade, produzir. Especialmente à noite, porque durmo tarde e a noite é uma criança.?Música ? Se a televisão tornou sua imagem conhecida nacionalmente, a música lhe trouxe sucesso e popularidade. Nessa área também ele começou cedo, com 26 anos, compondo com Custódio Mesquita a marcha Menina, Eu Sei de uma Coisa, gravada em 1936. Não aconteceu. O sucesso só veio dois anos depois, com Nada Além, com o mesmo parceiro, gravada por Orlando Silva. Sucesso e surpresa, como conta Lago. ?A gente fazia fé na valsa Enquanto Houver Saudade, que estava do outro lado do disco?, lembra.Pelo jeito, os marqueteiros das gravadoras tinham pouco faro já naquele tempo, pois Amélia, outro grande sucesso, foi gravada pelo parceiro Ataulfo Alves porque ninguém a queria. A marcha Aurora, que completa sua trilogia de clássicos, também surpreendeu porque não era considerada promissora. Hoje, ele não ouve mais rádio, só vê televisão. ?O rádio virou um vitrolão, não tem mais programas e o controle remoto me tornou preguiçoso.?Ele, aliás, não se diz muito ativo, pelo contrário, mas sempre gostou de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Só não correu atrás de prestígio ou fez algo só por dinheiro, seja profissional ou politicamente. Neste último sentido, conta que era cobrado pela mulher, Zeli, com quem viveu 40 anos e que morreu há quatro. ?Ela dizia que tanto faz morar na Barata Ribeiro (rua de Copacabana) ou em Bento Ribeiro (bairro popular da zona norte). Aliás, mais radical que eu. Não me cobrou conforto material e nunca liguei para isso?, ressalta. Casar-se com Zeli, mãe de seus filhos, foi seu maior sucesso. ?Nós namorávamos e vínhamos no ônibus, quando eu perguntei: Você quer casar comigo? Ela respondeu: eu topo. Foi a coisa mais importante que me aconteceu na vida.?Livro ? Atualmente, Mário fica mais em casa e, de vez em quando, rascunha histórias de seu próximo livro, que vai ter o título de Meus Tempos de Moleque, contando suas "aprontações" da infância e juventude. Escreve à mão, mesmo com computador em casa, mas tem preguiça e deixa de anotar casos que lhe vêm à memória.Os filhos, que não saem de perto, se emocionam ao falar dele. ?Fomos criados sem um tapa, sem castigos. Posso falar por meus irmãos: temos orgulho de ter aprendido com nossos pais a solidariedade e o companheirismo. Mesmo quando tivemos militância política contrária à corrente deles, recebemos apoio?, diz Graça, a mais velha (os outros são Vanda, Antônio Henrique, Luiz Carlos e Mariozinho, o caçula, que está promovendo a festa).A idéia da festa de segunda é chamar músicos que já tocaram com Mário Lago e quem quiser sobe no palco para cantar e tocar suas músicas. ?Eu vou ficar aqui em cima, acenar para quem vier lá embaixo, mas não vou sambar. Nem fica bem na minha idade?, conclui Mário Lago, desmentindo a fama que tem de ser sisudo e de pouco riso.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.