Rio, capital Copacabana

A antropóloga paulista Julia O'Donnell mostra como o bairro se tornou sinônimo de glamour e cosmopolitismo

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2013 | 02h11

Em 1926, a Revista da Semana, a mais lida entre os antenados cariocas dos anos loucos, decretou que praia não era tanto para tomar banhos de mar, mas principalmente para combinar festas, bailes, flertar ou simplesmente falar mal da vida alheia. "Todo banhista que se preza observa estes dois princípios fundamentais: vestir-se o menos possível e demorar-se o mais possível nas atitudes e conciliábulos (reuniões) da areia." Quem era elegante ou moderno tinha a obrigação de "dar-se em espetáculo aos outros", como recomendava a revista. Os cariocas seguiram à risca o conselho e fizeram de Copacabana não só a "princesinha do mar" como a praia onde nasceu a "maneira zona sul" de viver. Essa e outras histórias engraçadas são contadas num livro sério da antropóloga paulista Julia O'Donnell, A Invenção de Copacabana, que a Editora Zahar acaba de colocar nas livrarias.

O livro é sua tese de doutorado, defendida há dois anos e orientada pelo antropólogo Gilberto Velho (1945-2012). Nele, ela mostra como nasceu o mito Copacabana - 100 quarteirões divididos em 78 ruas e 5 avenidas que, numa área equivalente a 8 quilômetros quadrados, conseguiu exportar seu nome como sinônimo de glamour e cosmopolitismo. Em homenagem ao mestre Gilberto Velho, a jovem Julia, de 32 anos, que mora há oito no Rio, escreveu sobre a mesma Copacabana analisada pelo antropólogo (em seu livro A Utopia Urbana, 1971, Zahar). O marco zero de Velho foi a década de 1950. Julia voltou atrás na linha do tempo para contar as origens da mais famosa praia do Brasil, que viu nascer em 1923 seu mais luxuoso hotel, o Copacabana Palace, palco de grandes eventos e parada obrigatória de astros e estrelas em passagem pelo Rio.

Seu interesse pelo assunto surgiu quando Julia, alguns anos atrás, testemunhou um bate-boca entre duas vizinhas que disputavam a mesma vaga no estacionamento. "Não tem cacife para morar na zona sul? Volta para o subúrbio então, que lá é o seu lugar!", gritou uma delas. O livro, em muitos sentidos, segundo a autora, "é uma reflexão sobre o processo de gestação das representações que atribuem à zona sul do Rio". O que levou o antigo areal a ser um bairro disputado pela elite carioca, fazendo com que sua população pulasse de 297 habitantes em 1906 para 161 mil um século depois?

A resposta veio quando lhe caiu nas mãos um velho exemplar de Beira-Mar, "o semanário da elite praiana" fundado em 1922, um ano antes da inauguração do Copacabana Palace. Foi então que a antropóloga percebeu que a publicação, ao se dirigir ao "nosso grand monde", à "fina flor de nossa jeunesse dorée", era um produto de um "sólido sistema de troca de prestígio entre leitores e colaboradores". Em outras palavras: estava decretada a guerra entre a chamada "civilização praiana" contra a "matula" que havia subido o morro, empurrada pela especulação imobiliária e por um perverso programa governamental para formar um cordão sanitário contra as nascentes favelas.

A década de 1920 viu nascer o esplendor e a miséria com a progressiva criação de palacetes na praia e barracos no morro. Na primeira grande campanha contra as favelas, João Mattos Pimenta, do Rotary Club, vocifera contra o que classifica de "lepra da estética" que surgiu no morro. O semanário Beira-Mar joga mais lenha na fogueira, denunciando tiroteios entre "indivíduos dos piores antecedentes concebíveis". Julia foi pesquisar e descobriu que não eram só delinquentes os que foram morar na favela, mas principalmente militares reformados de baixa patente. "Pressionados pelos baixos salários e não querendo ir para os subúrbios, eles preferiam subir o morro para ficar perto do centro."

"Esse foi um segundo momento no bairro, quando se comemorava o centenário da Independência e eram discutidos os novos rumos da identidade nacional", observa a autora. No primeiro momento, quando Copacabana era ainda um areal habitado por poucos pescadores (meados do século 19), o carioca não tinha o hábito de ir à praia. "Até 1920, as grandes atrações da cidade eram os teatros e os cafés", conta, lembrando que a sociabilidade praiana começa mesmo nessa década, primeiro com o footing na Avenida Atlântica e depois com os banhos de sol com trajes cada vez mais ousados, destinados a afirmar a "vocação cosmopolita" da elite de Copacabana - sempre um passo à frente dos suburbanos.

"Os trabalhadores costumavam tomar banhos de mar às 4 da manhã", mas a elite ia mais tarde à praia para tomar banhos, a conselho médico, ou se bronzear, imitando o exemplo da estilista Coco Chanel, que, em 1924, surgiu em público com a pele morena, lançando moda. Foi em 1928 que o Rio, "oferecendo um misto de glamour e exotismo", entrou na rota dos turistas estrangeiros, diz Julia, lembrando que o Copacabana Palace demorou para ser ocupado por grandes montas de visitantes.

Para escrever o livro, a antropóloga passou quatro anos fazendo pesquisas e, curiosamente, descobriu mais lendo obras de ficção que ensaios acadêmicos.

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