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Rio, água e carnaval

Se a água do alambique faz rir, a do ribeirão traz destruição e horror

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

19 de fevereiro de 2020 | 03h00

A crise climática mostra suas garras na forma de tempestades e brutais alagamentos que, neste ano da graça de 2020, coincide com o carnaval. 

Encontro não previsto e intrigante porque se há um exagero da natureza nos aguaceiros, que denunciam a carência de saneamento, há, no lado da sociedade, o clima de licença dos costumes e do trabalho da festa de Momo. Um ritual também marcado pelo simbolismo da água. Não das águas que purificavam ou molhavam os incautos nos antigos “entrudos”, mas da “água que passarinho não bebe”, da cachaça inebriante que Quincas Berro d’Água, inesquecível personagem carnavalesco de Jorge Amado, sorvia com exclusividade.

A liberação da bebida popular é um importante ingrediente do carnaval e uma preferência universal dessa festa centralizada na rua, na música, na dança, no bloco e na fantasia, e não na comida, mesa e casa como ocorre no Natal e nas festas de santo. A bebida - a água ardente - conduz a uma liquidificação de posições sociais fixas o que corresponde ao espírito ou ideal carnavalesco. 

De fato, sem o álcool, como esquecer o batente dos horários, como enfrentar a terra plana das rotinas caseiras (café da manhã, almoço arroz com feijão, jantar “já te vi” e ir para a cama sem o amor da esposa). Como, sem uma cachacinha, aturar a total (e sempre legal e séria) insensatez dos governos em todos os níveis? 

O álcool e as marchinhas, que falam risonhas de problemas e tabus, agenciam o riso carnavalesco como uma plano B ou uma segunda vida, conforme assinalei no meu livro Carnavais, Malandros e Heróis.

Mas, neste carnaval, “as águas de março que fecham o verão” se juntaram àquelas outras águas cantadas na poesia despretensiosa das músicas que legitimam e consagram uma fugaz igualdade festiva numa sociedade pesadamente marcada por leis, decretos e costumes hierárquicos, que tentam colocar cada coisa em seu lugar e criam um lugar para cada coisa. Elas expulsam da cena o “você sabe com quem está falando?” e a gravata.

É o álcool cachaceiro que nos ajuda a assumir a folia ou maluquice e, com elas, a passar fantasiados de pobres a deuses ou de pessoas comuns a ministros e altos funcionários com o direito de não trabalhar e somente “brincar” ou “pular” neste rito cada vez mais avesso à racionalidade funesta dos mercados. 

No espaço de Momo, cantamos com Mirabeau Pinheiro, Lúcio de Castro, Marinósio Trigueiros Filho e Heber Lobato a marchinha Cachaça, de 1953, lembrando que: “Se você pensa que cachaça é água/ Cachaça não é água não/ Cachaça vem do alambique/ E água vem do ribeirão”.

Esse ribeirão que transborda e inunda avenidas porque tudo, especialmente no “carnaval imoral das propinas”, tem sido feito por parentes e amigos. É essa carnavalização que mistura necessidades públicas com ganância pessoal que as chuvas denunciam como intoleráveis. Pois se a água do alambique faz rir, a do ribeirão traz destruição e horror. Aliás, pior que isso, mas seguindo o mesmo espírito carnavalesco, há uma água imbebível no Rio de Janeiro onde chegamos ao cúmulo de poluir os mananciais.

Neste carnaval, reitero, há um encontro de dois fatos extraordinários. O excesso da natureza ao lado do exagero da cultura. Ambos são momentos especiais com a diferença de que somos produtores da alegria festiva de Momo e, indiretamente, responsáveis pelas lágrimas das águas que deveríamos controlar. Há uma lógica no carnaval situado entre a alegria do Advento (nascimento de Cristo) e a disciplina da Quaresma (tempo de seu sacrifício, sua paixão e morte), enquanto as enchentes são obra da impessoalidade capitalista que liquida o planeta. Temos o riso carnavalesco do que foi um rito e hoje é um bem-comportado feriado, em sincronia com o sofrimento das águas parcialmente previsíveis e paradoxalmente amaldiçoadas. 

*

PS: A “crise da água” remete a duas marchinhas. Tomara Que Chova (de Paquito e Romeu Gentil, de 1951) pedia chuva porque faltava água. A de Vitor Simon e Fernando Martins, Vagalume, de 1954, ironizava nossas incuráveis carências: “Rio de Janeiro, cidade que nos seduz, de dia falta água, de noite falta luz”. 

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