Epitácio Pessoa/Estadão
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Daniel Martins de Barros
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Rindo durante o naufrágio

Rir na bonança é opcional. Na tragédia é imperativo. O problema é que se trata de um desafio e tanto

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2021 | 03h00

Nós precisamos de humoristas mais do que nunca. No meio de uma tragédia?, podemos nos perguntar. Especialmente no meio da tragédia! – afirmo sem medo de errar. Rir na bonança é opcional. Na tragédia é imperativo. O problema é que se trata de um desafio e tanto. Bolar uma piada é muito fácil. Difícil é fazê-la ter graça. No meio da tristeza, então, tudo se complica. Qualquer um consegue umas risadas contando um caso sobre seus filhos no meio de uma festa de criança, mas é preciso talento para ser o piadista de velório, aliviando um pouco a dor dos enlutados.

Fazer troça com o falecimento em si ou rir da dor alheia obviamente estaria fora de questão. Mas rir da ironia da vida e da finitude humana nos ajuda a olhar de frente para a indesejada das gentes. Lembrar casos engraçados envolvendo o defunto retira um pouco a força daquela perda.

Num artigo recente, o comediante Gregório Duvivier expunha sua crise pessoal por ser um comediante no meio de nossas tragédias nacionais, que comparava ao naufrágio do Titanic. Diz a lenda que os músicos continuaram tocando enquanto o navio afundava, mas coitado do comediante que tentasse sequer fazer uma piada. A música seria um acompanhamento bem-vindo para a tragédia. A comédia, não.

Está certo, mas só em partes. De fato, a música, com sua carga emocional, pode ser uma boa guarnição para as lágrimas. Ouvir canções tristes, por exemplo, é um remédio universal para a dor de cotovelo. É como se as melodias melancólicas e letras tristes nos lembrassem de que não estamos sozinhos. Se o humor, por sua vez, não vai bem com o pesar, isso se deve à sua característica oposta à da música: a verdadeira piada é isenta de emoção. Ela não combina com a tristeza, mas de resto também não se aconchega à raiva, ao medo, ao desespero, porque seu poder é o de sobrepujar, ainda que temporariamente, qualquer emoção. A anedota bem armada, precisa, apela tão bem à razão que esta cala os afetos, trazendo alívio na forma de risada. Na dor o comediante não é um companheiro, é um antídoto.

Se essa função do humor não bastasse, ele é um meio perfeito para apontarmos os absurdos que nos cercam. O cientista Konrad Lorenz, famoso por dizer que não levamos o humor suficientemente a sério, defende que ele tem a capacidade de apontar defeitos para as pessoas cujos ouvidos estão surdos a outros tipos de apelo da razão. “Em outras palavras, é o tipo certo de sermão hoje em dia”, afirmou há mais de cinquenta anos. Em meio à irracionalidade de nossos tempos atuais, esse poder do humor é ainda mais necessário meio século depois. Sim, extremistas de um lado e de outro podem se incomodar com os chistes (mas até aí, que outro apelo os demoveria de suas posições inflexíveis?), mas o grosso da sociedade só terá benefícios ao ter os botões do raciocínio acionados por boas piadas.

Fica, então, meu apelo ao Gregório Duvivier e, nele figurado, a todos os humoristas do Brasil, à direita, à esquerda, acima e abaixo. Não deixem de nos fazer rir. Ajudem-nos a ter alívios momentâneos para nosso sofrimento. E despertem nossa razão.

As risadas mostrarão que estão no caminho certo.

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’

 

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