Rimas e grafites que resistiram ao tempo

Dedicado à cultura da periferia, Manos e Minas completa 5 anos no ar

JOÃO FERNANDO, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2013 | 02h08

Foi preciso muita imaginação e fôlego para fazer tantas rimas nos cinco anos do Manos e Minas, programa dedicado ao hip-hop e à arte da periferia, que terá edição comemorativa amanhã, às 17 horas, na TV Cultura. No aniversário, o convidado será o rapper Edi Rock, um dos fundadores do Racionais MCs.

"Desde que entrei para o programa tenho vontade de trazer o Racionais. Anualmente, a gente passa uma cantada", torce o diretor Marcelo Oliveira Costa, há três anos na atração. Com o mesmo tempo de casa, o apresentador e especialista em freestyle (improviso de rimas), Max B.O. comemora o fato de pelo menos um membro artista da banda participar. "Eles estão sem gravar há 11 anos. Essa é a primeira apresentação de um integrante sozinho na TV para mostrar o novo trabalho."

Segundo a equipe, a única atração da rede aberta que trata exclusivamente do tema teve longevidade porque os ritmos musicais das quebradas se misturaram a outros estilos. "A renovação do programa passa pela renovação do rap. Era uma coisa de nicho, da periferia. Hoje, ele invadiu a Rua Augusta e bairros como o Jardim Paulistano. Atinge diversas faixas etárias e classes sociais", analisa Costa. Max B.O. avalia a produção. "Nas matérias, a gente traz coisas não só ligadas ao hip-hop, mas dos manos e minas em geral. Sempre tem gente nova chegando à plateia."

Para o diretor, a ausência de programas dedicados ao rap e hip-hop na TV não se trata de falta de interesse nos ritmos da periferia, mas da música em geral. "O hip-hop é um gênero consagrado. É mais uma resistência ao programa musical do que ao rap. Não há muito espaço para a música ao vivo, há poucos programas como o Som Brasil (Globo), por exemplo", explica Costa, que avalia a mudança no comportamento do telespectador. "As pessoas veem a parte de música na hora em que querem, no computador. Com o Manos e Minas, temos um pós-programa na internet. Se o cara chega em casa às 2 horas da manhã, vai querer ver vídeo sob demanda, não na TV."

A página virtual do programa tem conteúdo inédito disponível assim que sair do ar. Além de um videoclipe que pode ser acessado por uma semana, o DJ do Manos e Minas, Erick Jay, monta uma lista de canções que entraram na atração ou que têm a ver com o tema. Há ainda entrevistas com outros DJs e artistas relacionados.

É pela rede também que a turma da produção descobre novos talentos para convidar. "A gente recebe muitos CDs, mas também muitos links dos vídeos deles. Hoje, está mais fácil para quem produz", conta o diretor, com passagens pela Globo e MTV. "Meu universo era mais do rock e do jazz. Agora, eu corro atrás de coisas de rap e hip-hop", confessa.

Marcelo Oliveira Costa prefere dizer que o Manos e Minas não apadrinhou nenhum artista conhecido hoje, mas ajudou a impulsionar a carreira. "Um dos que saíram do Manos foi o Emicida. Talvez tenha sido o primeiro programa de TV que tenha feito, mas ele já era reconhecido", cita o rapper que já atuou como repórter da atração. "Acho que o Manos é uma oportunidade. Há projetos que só conseguiram caminhar depois de a gente fazer uma matéria", completa Max B. O.

Além de divulgar cantores, o programa também dá espaço para grafiteiros. Antes, os artistas mostravam suas criações em um canto do palco. Com o passar do tempo, a produção começou a gravar quem grafita nas ruas. "Desde o ano passado, uns grafiteiros desenharam em casas atrás de um shopping. Depois, eles foram chamados para grafitar um muro inteiro", relembra Costa. Hoje, o Manos e Minas tem um banco de dados de artistas e consegue espaços para os novatos. "Nós vamos na quebrada dos caras. E queremos ampliar, fazer uma exposição. O bom é que o cara não precisa mais sair de madrugada e grafitar escondido."

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