Rigoletto, uma ópera de revolta e amor

O barítono Licio Bruno, como Rigoletto, fala sobre personagem que canta na montagem do Theatro S. Pedro

28 Julho 2010 | 06h00

Regência é do maestro Roberto Duarte e direção cênica, de Lívia Sabag. Foto: Divulgação/Adriano Scanhuela

 

 

João Luiz Sampaio

 

SÃO PAULO - "Há personagens que se interpreta com tranquilidade. Outros, exigem cuidado." É assim que o barítono Lício Bruno começa a descrever Rigoletto, papel-título da obra de Verdi que ganha a partir de hoje nova montagem no Theatro São Pedro. "Não há como cantá-lo sem um senso grande de responsabilidade e reverência", continua o cantor, que tem despontado nos últimos tempos como intérprete de alguns dos principais papéis verdianos.

 

Inspirado em Victor Hugo, Rigoletto narra a história do bobo da corte que se vê às voltas com o ódio pelo duque a quem serve - e o medo de perder a filha, Gilda. "Musicalmente, é uma das criações mais difíceis da literatura para barítono. Além da tessitura, exige uma variação de timbre muito grande até porque dramaticamente tudo é sempre muito intenso", diz Bruno. "É um homem sombrio, uma pessoa desprovida de amor próprio, de onde vem uma ironia muito grande, mordaz. Ao mesmo tempo, todo lado humano ele projeta na figura da filha, que para ele representa a mulher que um dia ele amou, mas perdeu. Sua carga de revolta com relação à vida é, por isso, muito grande, o que leva a uma carga emocional forte."

 

A produção é assinada pelo maestro Roberto Duarte - que comanda a recém-formada sinfônica do Teatro São Pedro em sua primeira ópera - e pela diretora cênica Lívia Sabag. No elenco da estreia, além de Bruno estão a soprano Laura Rizzo, como Gilda, o tenor Miguel Geraldi, como o duque, o baixo Sávio Sperandio, como Sparafucille, e a mezzo Adriana Clis, no papel de Madalena; no segundo elenco, Rigoletto será vivido pelo experiente Sebastião Teixeira, ao lado da soprano Caroline De Comi, do tenor Sérgio Weintraub, do baixo Fernando Gazoni e da mezzo Keila de Morais.

 

Verdianos, wagnerianos. A primeira vez que Bruno interpretou Rigoletto foi em 2001, em Brasília. De lá para cá, não apenas acrescentou outros papéis de Verdi a seu repertório - como Iago, em Otello, e Germont, em La Traviata - como ofereceu boas leituras de Wagner, como Wotan, no Anel do Ni belungo, e Telramund, em Lohengrin. "Muito mudou nesses quase dez anos, no aspecto técnico e vocal, uma maturidade que vem com o tempo. Hoje chego ao final da ópera com a voz inteira, com fôlego, tranquilidade. E as vivências pessoais, os profissionais com quem trabalhei, tudo isso me coloca em uma etapa diferente de minha carreira. E tenho sentido que Verdi se encaixa bem neste meu momento", diz.

 

Em outubro, ele vai interpretar Nabucco, em Belo Horizonte. "Traviata, Rigoletto e Nabucco são três desafios diferentes e interessantes. E de alguma forma vejo que a experiência de cantar Wagner me ajudou a encarar Verdi, por mais paradoxal que possa parecer. Wagner me demonstrou soluções técnicas e dramáticas que posso usar no repertório italiano e em especial nas grandes óperas verdianas. Tudo isso me faz sentir em um caminho sólido, seguro, em que posso explorar o que minha voz me permite."

 

Rigoletto - Theatro São Pedro. (636 lugares). Rua Barra Funda, 171, Barra Funda, 3667-0499. 4ª a 6ª, às 20h30; sáb. e dom., às 17 h. R$ 20. Até 1º/8.

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