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Ricky o luto com graça

François Ozon explica como a história de bebê especial lhe permite retomar seus temas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2011 | 00h00

François Ozon tem sido uma presença constante no Rendez-Vous du Cinéma Français, em Paris, em janeiro. Nos últimos anos, ele se encontrou com o repórter do Estado para discutir filmes como O Refúgio e o ainda inédito Potiche (com Catherine Deneuve). No caso de Ricky, em cartaz na cidade, a entrevista foi realizada depois, por telefone. Mas foi o Ozon de sempre - humorado, inteligente, mesmo quando fala sobre coisas graves. Ricky possui uma graça especial - e também um segredo de polichinelo, que não vale a pena revelar para não tirar o encanto do filme. Há algo de muito particular no bebê de Ricky, mas se Ozon abre seu cinema para o fantástico é justamente para continuar falando de seus temas favoritos - família, amores infelizes, luto.

Ricky foi feito depois de O Refúgio, que já estreou no Brasil. Ambos tratam de maternidade, de família. Por que esse bebê?

Achei a história encantadora, do jeito como é contada pela escritora inglesa Rose Tremain. O livro dela se chama em inglês Moth, como as mariposas que são atraídas pela luz. Em francês, virou Léger Comme L"Air, leve como o ar. A história de Rose me interessou como ponto de partida. Quando isso acontece, o que faço é me apropriar do texto original. Ricky e O Refúgio são filmes sobre a maternidade, mas muito diferentes, no enfoque e no tom. O Refúgio é sobre uma mulher que não quer ser mãe. Foi um filme que fiz para realizar meu desejo de trabalhar com uma atriz grávida. Jamais teria feito O Refúgio com uma barriga falsa. Ricky é sobre a família, sobre amores difíceis. E é sobre um bebê especial que faz com que uma mulher enfrente a dor da perda.

Perda, morte, luto. Você é jovem, bonito, bem-sucedido. Por que justamente esses temas?

Porque rendem bons filmes (risos). O público que vai aos cinemas é hoje predominantemente jovem e os produtores e distribuidores dizem que os jovens não se interessam por esses assuntos. Para Hollywood, os jovens só querem saber de sexo e eles vivem recontando histórias de primeira noite. Eu me interesso pelos sentimentos. Meus filmes tratam com frequência da morte, do luto. Às vezes, não é necessariamente a morte, mas uma perda, como em Ricky. Para mim, é um filme sobre o casal, a família.

Você sempre quis filmar a morte de uma criança, mas considerava o tema cruel. Ricky pode ser esse filme?

Talvez, na medida em que narra uma história de perda e de luto. Apesar do elemento fantástico, é um filme sobre relações, sobre esse pai, essa mãe, sobre a invasão da família pelos meios de comunicação.

Em Rocco e Seus Irmãos, que considero o filme definitivo sobre família, Luchino Visconti faz com que Alain Delon diga: para que a família cresça unida, é preciso um sacrifício. Concorda?

Meu Deus! Visconti! De repente nós vamos de Ricky a Visconti, um gênio do cinema. Entendo o que você quer dizer. Visconti fez filmes que levaram o realismo ao limite. As pessoas dizem, que meus filmes são estranhos. Quis radicalizar esse estranhamento, mas sem sacrificar o que há de verdadeiro e realista na relação entre Sergi Lopez e Alexandra Lamy. Ricky é o único de meus filmes que tem efeitos especiais, mas eu queria que eles não aparecessem, que o público se concentrasse só na história e nas relações. Voltando a Visconti, não sei se a perda fortalece a família, mas todos precisamos fazer nossos lutos.

Você diz que não teria feito O Refúgio sem uma atriz grávida e eu acrescento que aqui você também precisava do bebê certo para tornar a fábula atraente. Como encontrou o bebê?

É bem de uma fábula que se trata e, sim, sem a gravidez de Isabelle Carré eu não teria feito O Refúgio, sem o bebê de Ricky o filme também não seria a mesma coisa. Um monte de gente me ajudou a procurar esse bebê, mas o processo foi rápido porque bebês crescem, você sabe. Para mim, um filme depende sempre do ator certo, da atriz. Porque é por meio deles que vou tentar atingir o público. Todo mundo fala do cinema como a arte da mise-en-scène, da mise en images. Para mim, a imagem que conta é sempre a do ator.

O diretor

François Ozon nasceu em Paris, em 1967. Desde o curta Un Robe d"Été, premiado em Locarno, e nos longas, desenvolve obra eclética mas consistente: Sob a Areia, Oito Mulheres, O Tempo Que Resta.

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