Paul Drinkwater/NBCUniversal/Handout via REUTERS
Paul Drinkwater/NBCUniversal/Handout via REUTERS

Ricky Gervais: 'Acho que julgamos demais as pessoas'

Na série 'After Life', personagem decide se tornar a pessoa que sempre quis ser – assertiva, sem tato e extremamente resistente aos esforços dos amigos que esperam levá-lo a seguir um caminho mais positivo

Entrevista com

Ricky Gervais

Dave Itzkoff, The New York Times

28 de abril de 2020 | 05h00

Ricky Gervais tem um timing cômico seguro. Ele contribuiu para o renascimento da comédia ácida e sarcástica como criador e estrela da versão britânica original de The Office. E tem se colocado, com sucesso, contra a Hollywood abastada quando ocasionalmente é convidado como apresentador do Globo de Ouro. (Na sua apresentação, em janeiro, Gervais alfinetou seus pares célebres por suas demonstrações de consciência social e ao mesmo tempo trabalharem para companhias como Amazon, Apple – “uma empresa que explora trabalhadores na China” – e a Disney. “Se o Estado Islâmico iniciasse um serviço de streaming você telefonaria para o seu agente, não ligaria?”, ele provocou.)

Mas o atual momento cultural será receptivo à segunda temporada da sua série de humor After Life, lançada no fim de semana pela Netflix?

Na série, que ele criou, escreveu o roteiro e dirige, Gervais também assume o papel principal de Tony Johnson, um viúvo que ainda lamenta a morte da mulher, Lisa (Kerry Godliman) que morreu por causa de um câncer de mama. Na sua dor, Tony decide se tornar a pessoa que sempre quis ser – assertiva, sem tato e extremamente resistente aos esforços dos amigos que esperam levá-lo a seguir um caminho mais positivo.

After Life está imbuído de um existencialismo que pode torná-lo um bálsamo neste momento, ou desconfortavelmente real. Como disse Gervais em vídeo recente: “Minha preocupação era se as pessoas conseguiriam rir de algo ridículo e chorar por causa de algo bem real. Acho que a resposta é sim”.

Gervais, em nossa conversa, falou sobre fazer comédia do sofrimento, a reação às suas apresentações no Globo de Ouro e sua desconfiança do culto da celebridade. Abaixo trechos da entrevista.

Como está sua quarentena?

Estamos confinados, mas é possível praticar exercícios todos os dias. Eu me tornei aquele sujeito – quando vejo pessoas fazendo piquenique e coisas do tipo, tenho vontade de chamar a polícia.

As coisas são realmente diferentes para você?

Minha vida não mudou muito, não costumo sair muito e sempre tem muita bebida em casa para um inverno nuclear. Não me queixo. Nem quando vejo alguma celebridade milionária dizendo: “Estou triste porque não estou na TV esta noite”, ou: “Nadei na piscina e isso fez me sentir um pouco melhor”.

A pandemia acelerou sua aversão à cultura da celebridade?

Não tenho nada contra celebridade ou fama, mas as pessoas estão cansadas desse culto. Hoje as celebridades pensam: “O público tem de ver o meu rosto. As pessoas não podem ir ao cinema, tenho de fazer alguma coisa”. E quando você olha nos olhos delas, sabe que, mesmo se estão fazendo algo bom, estão pensando: “Tenho de mostrar que sou uma pessoa boa”.

Mas quando você faz o tipo de stand-up como na cerimônia do Globo de Ouro deste ano, não pensa no efeito negativo?

Este é o erro que as pessoas cometem: porque escrevi e contei a piada este é o meu eu real. E não é verdade. Faço uma piada no meio da história e mudo minha posição para torná-la melhor. Finjo ser de direita, de esquerda, nenhuma linha, tenho de perseguir as pessoas mais ricas na plateia e a NBC e a Hollywood Foreign Press (que organiza a premiação). Tenho de ser o bobo da corte, mas um bobo que está seguro de que não será executado também. Tenho de fazer todos os camponeses rirem do rei, mas o rei também tem de gostar.

Muitos políticos conservadores se tornaram fãs seus por causa desse desempenho, pois acham que você finalmente abalou a elite de Hollywood. Você acha que alguns se afastaram ao saber que você não compartilha das suas posições em outros assuntos?

Não havia notado isso no Twitter até que alguns descontentes da elite liberal de repente começaram a dizer: “Gervais agora pertence à direita alternativa”. E eu me tornei o quê? O que tem de direita ridicularizar os mais ricos, as empresas mais poderosas do planeta? Mas já vi isso antes. Pessoas que me acompanham, se elas são de extrema direita provavelmente não são ateias como eu. Provavelmente não gostam da linguagem que uso e não concordam com minha posição de não viver à caça de troféus. 

A morte e a maneira como lidamos com a perda são temas onipresentes em After Life. Acha que estão mais sintonizados com o momento atual. Ou fica mais difícil de assistir?

Acho que julgamos demais as pessoas. E nos preocupamos com o que elas vão assimilar. A vida real é pior. Fico espantado com o que muita gente pensa: “Você não devia fazer piada disso”. Estamos lendo a respeito no jornal, por que não fazer piada? No caso de outros shows meus, as pessoas chegavam para mim na rua e diziam: “Adoro o seu programa”. Mas no caso dessa série, e isso já ocorria antes do coronavírus, me falavam: “Quero dizer a você que perdi minha irmã há três semanas”, ou então: “Perdi meu marido”. Ninguém disse: “Desliguei porque fiquei muito perturbado”, ou então: “Me lembrou algo ruim”. 

Há uma cena em um dos novos episódios em que Tony diz a outro personagem: “Tudo está mal para você. Estamos morrendo. Ser saudável é apenas morrer mais lentamente”. Você reflete sobre momentos como o atual de modo diferente?

Acho que seria diferente se eu fizesse uma série que fosse especificamente sobre o coronavírus – e que teremos às centenas. Mas em teoria é uma gozação sobre a morte e as pessoas estão morrendo o tempo todo. Tony lembra as pessoas de que não está no fim. Ele ainda quer punir o mundo. E então ele vê pessoas que estão em situação pior do que a dele e isso o faz se sentir ligeiramente melhor. Todos nós passamos por isso.

O que nos tira do nosso niilismo e nos leva a superar atitudes como essa?

Uma das ideias em After Life é sobre como o mundano nos salva. Precisamos de pequenas coisas. O fato de o cachorro, literal e metaforicamente, salvar a vida de Tony, o tempo todo. Eu digo ao cão, “se você conseguir abrir uma lata, caio morto agora”. A morte é o último tabu. Só não queremos que seja agora. Mas ainda podemos fazer piada sobre ela. Não sei se isso torna o show mais ou menos comovente ou divertido do que em outras ocasiões. Mas as pessoas estão fazendo coisas que pressupomos que façam neste momento: ficam em casa, lavam as mãos. Telefonam para a família. E acho que elas querem assistir Tiger King. Ninguém está pensando no coronavírus quando está assistindo a alguma coisa. A vida continua. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Veja o trailer de After Life:

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