Riccardo Muti, bem refinado

Riccardo Muti, bem refinado

DVD traz apresentações pelos 127 anos da Filarmônica de Berlim, em 2009, tendo o italiano como regente

, O Estadao de S.Paulo

25 de março de 2010 | 00h00

A Filarmônica de Berlim costuma comemorar seu aniversário - que cai num 1.º de maio - realizando um concerto numa cidade europeia. Isso acontece desde 1991, quando Abbado iniciou a tradição em Praga. Em geral, maestros e solistas dos países escolhidos são convidados para essas apresentações. Em 2009, a orquestra festejou seus 127 anos no Teatro San Carlo de Nápoles. No pódio, o notável regente italiano Riccardo Muti, 68 anos; e como solista a extraordinária soprano lituana Violeta Urmana, de 48 anos (que já fez um memorável primeiro ato da Valquíria de Wagner na Sala São Paulo, com a Osesp, em 2006, regida por Ira Levin).

A hora e meia de música da mais alta qualidade está registrada no DVD que acaba de chegar ao mercado brasileiro pela MusicBrokers apenas cinco meses depois de seu lançamento internacional (por R$ 50, em média).

É engraçado: compra-se o DVD por causa da abertura de La Forza del Destino de Verdi e da Sinfonia n.º 9 de Schubert - apelidada de "A Grande". De fato, a leitura dessas duas obras muito conhecidas é impecável. Mas a formidável surpresa mesmo fica com o ciclo La Canzone dei Ricordi (a canção das recordações) de Giuseppe Martucci, divinamente interpretado por Violeta Urmana. São sete canções que falam de nostalgia, de um passado irrecuperável, segundo os versos de Rocco Pagliera. A orquestração é claramente influenciada pela linguagem harmônica wagneriana, mas tem um ar mahleriano em seu DNA. Compostas em 1886/7, inicialmente para piano e voz, foram depois orquestradas. Trata-se do primeiro exemplo de lied de compositor italiano. Giuseppe Martucci nasceu em 1856. Morreu em 1909. Parece um nórdico, apesar de ter nascido em Cápua e morrido em Nápoles. Alma germânica num corpo peninsular. Não compôs nenhuma ópera, um absurdo para um compositor italiano do século 19. Em vez disso, escreveu duas sinfonias à la Brahms e este ciclo de lieder para voz e orquestra que tem tudo a ver com Mahler. Raramente gravado e menos ainda executado em concertos, este ciclo permanece injustamente desconhecido.

Muti já gravara essas canções com Mirella Freni e a Filarmônica do Scala de Milão em 1996 (CD Sony Classical). Embora excepcional, a voz da Freni é mais leve que a de Urmana. Esta, de certo modo, enfatiza e dá peso mais wagneriano às canções, tornando-as mais imponentes. Mas isso não quer dizer que estamos diante de uma performance pesadona. Que maravilha a voz poderosa de Urmana tecendo belas sutilezas vocais. E o refinamento de Muti, que obtém de seus músicos nuances delicadas de sons e equilíbrio entre os timbres, sem jamais encobrir Urmana. Arrisco a dizer que esta é a melhor leitura desse ciclo que já ouvi.

A primeira canção, No... svaniti non sono i sogni (não... os sonhos não se dissiparam), é mahleriana até a medula, com o lento andamento e o acompanhamento só com cordas. Numa palavra, comovente. Na segunda, Cantava il ruscello la gaia canzone (o rouxinol cantava a alegre canção), madeiras e metais sutis também participam da orquestra, ao lado das cordas, num acompanhamento ondulante. Fior di Ginestra (flor de giesta, planta ornamental) contrasta dois climas: o primeiro mais buliçoso, o segundo melancólico. Em Su il mare la navicella (o barquinho no mar) retorna o ritmo ondulante. O desespero de confundir a brisa com seu amor impera em Un vago mormorio mi giunge (um vago murmúrio toma conta de mim). Al folto bosco, placida ombria (a sombra plácida da densa floresta) é quem sabe a mais bela e pungente do ciclo, cantando as delícias e as angústias do amor. O ciclo fecha-se com nova versão da primeira (Não... os sonhos não se dissiparam), só que desta vez o interlúdio orquestral é bem mais extenso.

A qualidade das imagens e dos ângulos fica por conta do experiente produtor Jan Smaczny e do diretor Michael Beyer - ajudados, evidentemente, pela extraordinária beleza do Teatro San Carlo de Nápoles.

QUEM É

GIUSEPPE MARTUCCI

COMPOSITOR

CV: Nascido em Cápua, Giuseppe Martucci atuou como pianista, compositor e regente. À frente das principais orquestras italianas, trabalhou principalmente o repertório sinfônico e foi responsável pela introdução da música do alemão Richard Wagner no país. Como compositor, dedicou-se à criação de obras longe do universo da ópera.

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