Ricca encena o sofrimento que amadurece

Marco Ricca é um diretor inquieto.Estreou na função em 1996, com o claustrofóbico Oeste, doamericano Sam Shepard, uma história de derrotados. Três anosdepois, traçou o perfil da geração sem perspectiva e dos filhosdo sonho desfeito em Shopping e Fucking, do inglês MarkRavenhill. Faltava-lhe um texto nacional até receber Senhordas Flores, de Vinícius Márquez, uma história sobre osofrimento que faz amadurecer. A peça estréia quinta-feira, noTeatro Cultura Inglesa, em São Paulo, e reforça sua intenção decontinuar promovendo a reflexão."Sempre recebo muitas peças inéditas de autoresbrasileiros, mas, desta vez, pedi ao Vinícius que escrevessealgo especialmente para mim", conta Ricca, que pretendiainterpretar um dos papéis. Ao receber o texto, porém, sentiu anecessidade de assumir a direção. "Trata-se de uma discussão daética sob uma ótica poética tão forte que preferi não atuar."A peça mostra o embate de dois personagens: Oto, umprofessor universitário de 45 anos, com formação humanista, eJulian, jovem rico e individualista. O que os une é a paixãopela mesma mulher, Júlia, que abandona um em favor do outro - noinício da história, Oto vive o momento da perda, enquanto Juliandesfruta a doce vitória da conquista. Os personagens só seencontram, porém, quando Julian também vivencia o dolorososentimento de perda.Com o texto nas mãos, Ricca logo visualizou os atoresideais. "Eu queria Elias Andreato na direção, mas logo percebique ele tem a sensibilidade necessária para viver Oto. E, para opapel de Julian, Caco Ciocler despontou como opção natural porser um dos melhores atores da nova geração", explicou.A união satisfez plenamente o trio. Andreato comemora 25anos de carreira e pretendia marcar a data com um textonacional. Já Ciocler sempre desejou trabalhar com Andreato, cujainterpretação em Van Gogh convenceu-o de seguir a carreira deator, e com Ricca, cuja atuação em Dois Perdidos Numa NoiteSuja tornou-se um referência.Juntos, eles embarcaram em um trabalho intenso e semconcessões. "Marco é um diretor decidido e, ao contrário de mim, não abre mão da sua leitura ao comandar os atores", observaAndreato. "Chegamos a ficar até cinco horas discutindo apenasuma frase", conta Ciocler.A dedicação de Ricca chegou a um ponto que, mesmoestando no Rio, onde grava a novela O Beijo do Vampiro, elese comunicava com o elenco por meio de um rádio. "Como sei otexto de cor, eu podia passar algumas orientações mesmo àdistância."Clássico - O diretor decidiu tratar o texto como seencenasse um clássico, em que as palavras são valorizadas. Paraisso, os diálogos foram lapidados e valorizados, sempre com aanuência de seu autor, Vinícius Márquez. "Percebi que isso eraextremamente importante pois a peça mostra como a busca do amortransforma dois indivíduos, impossibilitando a comunicação",justifica Ricca.A crueldade na relação dos dois homens recebeu umtratamento poético, o que exigiu mais dos atores. "Issoacontece porque decidimos não seguir o caminho mais fácil eóbvio", comenta Elias Andreato, acreditando que a autenticidadedas interpretações foi conseguida principalmente pelo fato deMarco Ricca ser também um ator. "Muitas vezes, somente umcolega nos permite chegar até a alma do personagem, pois sabecomo indicar um olhar ou um pequeno gesto que pode serdefinitivo."Para atingir o objetivo proposto, o espetáculo conta comum grupo afinado também na produção. A trilha sonora foiespecialmente composta para a peça por Eduardo Queiroz, que háanos trabalha com Ricca. "Ele consegue interpretar o sentimentoexato proposta para cada cena", comenta o diretor, que contaainda com o trabalho de iluminação de Maneco Quinderé paradefinir o embate entre os personagens. O cenário e os figurinosforam criados por Aby Cohen e Lee Dawkens."O grande trunfo do espetáculo é justamente a unidadeconseguida pela produção", observa Ciocler. "Não há nenhumaspecto que se destaque mais que os outros, pois, o que sesobressai é o questionamento ético do amor."Senhor das Flores. De Vinícius Márquez.Direção Marco Ricca. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 20horas. R$ 25,00 e R$ 30,00 (sábado). Teatro Cultura Inglesa. RuaDeputado Lacerda Franco, 333, em São Paulo, tel. (11) 3814-0100.Até 30/3. Estréia quinta para convidados e sexta para público.Patrocínio: Brasil Telecom e BR.

Agencia Estado,

27 de janeiro de 2003 | 18h12

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