Ricardo Piglia fala de seu novo livro O Último Leitor

Um dos mais esperados convidados da 4.ª Festa Literária Internacional de Paraty, o escritor argentino Ricardo Piglia foi obrigado a cancelar a viagem por causa de uma virose. Uma ausência sentida - Piglia preparou uma palestra sobre seu mais recente livro publicado no Brasil, "O Último Leitor" (Companhia das Letras, 192 páginas, R$ 35,50), conjunto de seis ensaios em que identifica várias modalidades de leitura na tradição literária ocidental.Intitulada "O Escritor como Leitor", a palestra, "mesmo não proferida, foi oferecida como um presente aos participantes da feira, que a receberam em um pequeno caderno editado pela Companhia das Letras. Mimo precioso: Piglia parte de uma conferência feita pelo polonês Witold Gombrowicz em 1947 para destacar a vitalidade da leitura como uma das experiências mais estimulantes do homem contemporâneo.Vanguardista, fama que sempre o acompanhou, Gombrowicz combateu febrilmente o nacionalismo e o anti-semitismo e, na Argentina, país onde viveu, incentivou diversos autores a dessacralizar o ato literário, humanizando a literatura. Considerado um marco do modernismo europeu, seu livro "Ferdydurke" finalmente ganhou uma edição brasileira. Autor de livros estranhos e excêntricos, Gombrowicz concentra o foco de sua obra no homem - em uma de suas frases mais conhecidas, ele dizia: ?Esquecemos que ao homem cabe não só convencer ao outro homem, mas cativar, ganhar, seduzir, encantar, possuí-lo.?Obra literária só existe quando o leitor abre suas páginasÉ o que norteia os instigantes ensaios de Ricardo Piglia. Considerado ?uma história imaginária da leitura?, "O Último Leitor" parte do princípio de que uma obra literária só existe plenamente quando algum leitor abre suas páginas e lhe dá vida - caso contrário, trata-se de uma letra morta.Cria-se, assim, uma particular sociedade formada por leitores reais e imaginários de todos os tempos, aqueles que, juntos, trazem a leitura e o leitor para o centro do universo ficcional. Piglia escolhe cenas da história literária do Ocidente para moldar o perfil o chamado ?último leitor?, aquele que se empenha de corpo e alma a decifrar a página escrita, navegando entre a realidade e a ficção.Assim, apóia-se tanto em "D. Quixote" de Cervantes como em "Madame Bovary" de Flaubert. Flagra passagens das "Ficções" de Borges e de "Ulisses" de Joyce, passando por uma galeria fascinante de leitores viscerais, que empenham toda sua existência na decifração da palavra escrita e, por meio desta, do próprio destino. Mesmo os mais trágicos, como Gramsci em uma prisão fascista ou Robinson Crusoe em uma ilha deserta. Ou então cenas prosaicas, como Anna Karenina em um trem para Moscou ou Che Guevara em cima de uma árvore, no auge da guerrilha boliviana, lendo um livro. Restituindo à leitura seu caráter de aposta, Ricardo Piglia concedeu, por e-mail, a seguinte entrevista ao Estado".Em julho, você participou de uma conferência na Argentina sobre a obra de Juan José Saer, morto no ano passado. Qual a importância da obra dele na literatura atual (e na Argentina em especial)?Uma importância extraordinária. Trata-se de um grande escritor, com uma obra muito pessoal. Não conseguimos ainda assimilar o que significa sua ausência. Mas sua obra persiste e vai perdurar para além do modismo como um exemplo de rigor e perfeição."O Último Leitor" reúne diversos ensaios publicados ao longo dos anos. Em qual sentido considera esse livro como um dos mais pessoais que já escreveu?Basicamente porque é uma história de minhas próprias leituras. Uma viagem pessoal pelos rincões perdidos da minha biblioteca.Por que as representações que você faz do leitor estão sempre associadas a figuras extremas?Encontrei-me com essas figuras de leitor à medida que avançava, não tinha essa imagem ao iniciar a escrita do livro. Mas descobri que os personagens que aparecem lendo nos romances estão, em geral, em situações extremas. Interessei-me em reconstruir o que acompanhava o ato de ler.E por que Che Guevara seria o último leitor?Faz parte de uma série de figuras que desejam abandonar a leitura e passar à ação. Desejam viver o que leram. Estão na fronteira entre a leitura e a vida. Desde logo, Dom Quixote é uma dessas figuras e, às vezes, penso que Guevara é o que encerra a série.Normalmente, o leitor associa o que lê com assuntos ligados à sua própria experiência. Seria por isso que a leitura jamais poderá ser algo neutro, mas, ao contrário, algo passional?Exatamente, essa é a chave para mim nessa relação entre leitura e experiência.Sendo assim, como identificar o leitor como alguém que lê mal?Sempre lemos mal, porque lemos a partir do ponto de vista de nossa própria experiência de vida. Cada leitor usa os livros de modo distinto e para finalidades distintas e o sentido depende do uso. Ler mal deve ser entendido como um trajeto não previsto, mas implícito. Um livro é um mapa e nenhum mapa tem apenas uma direção. Claro que, às vezes, podemos nos perder.Em sua experiência pessoal, o que sente quando lê? Que pensamentos lhe passam pela cabeça?Nesta tarde, por exemplo, estava lendo um romance policial de Dürrenmatt - exceto pelo fato de abandonar a leitura para responder a esta entrevista - e, enquanto a lia e admirava o velho detetive Bärlach, pensava em um amigo que tinha chegado a Buenos Aires e com quem jantaria nesta noite, pensava na invasão dos 10 mil soldados israelenses no Líbano, nos bombardeios na população civil, pensava também nos sapatos que tenho de consertar, no cachorro do vizinho que late cada vez que chega alguém. Poderíamos seguir nessa linha, como qualquer um que, a esta hora mesmo, estivesse lendo um livro e que nos contasse os pensamentos que surgem no momento da leitura. Essas associações ou interrupções, em todo caso, definem o ritmo da leitura, como os silêncios na música.Como é possível (se é realmente possível) esclarecer o enigma do leitor?Não creio que seja possível. Justamente no livro tratei de trabalhar com histórias individuais e leitores concretos (ainda que imaginários) e não com a categoria geral da leitura ou do leitor abstrato. E, caso se pense na história particular, no sujeito concreto, nunca se pode fechar o circuito.Qual a diferença entre a leitura de escritores feita apenas por escritores e a leitura de escritores feita também por leitores?Bom, sempre digo que a primeira coisa que muda quando se começa a escrever é o modo de ler. Digamos que exista uma leitura mais técnica, destinada a descobrir como foi feito o livro que se está lendo. É certo que nenhum escritor lê dessa maneira. Todos somos, em um sentido, leitores ingênuos, lemos porque sim, sem buscar nada, para nos surpreender e pelo simples gosto da leitura. Mas todos - não apenas os escritores - somos também leitores técnicos, que lemos pensando na utilidade prática de que estamos lendo.O crítico seria um leitor privilegiado? E o que dizer de escritores que também foram críticos?O crítico é um leitor profissional, um leitor que nem sempre lê o que deseja. E quanto aos escritores, estes também são críticos (e muito bons). Poderíamos, por exemplo, fazer uma lista de poetas que são excelentes críticos: Pound, Auden, Haroldo do Campo, Brodsky, Valéry. Os poetas costumam ser leitores privilegiados.Hamlet, Quixote, Bartleby, Pierre Menard e Madame Bovary são exemplos de personagens que apresentam ecos inesperados de uns livros em outros. Seriam eles exemplos de leitores emblemáticos?São as grandes figuras da cultura moderna. São leitores, quer dizer, são intelectuais. Bastaria agregar a essa série o Dr. Fausto ou Sherlock Holmes ou ainda Kate Fansler, a heroína de Amanda Cross, para termos uma galeria de figuras emblemáticas.Qual a importância de Borges, que criou uma zona ambígua entre ficção e especulação?Em um sentido, Borges inventou esse gênero. O que chamamos hoje de ficção especulativa, essa forma muito produtiva da literatura contemporânea (na qual podemos incluir Philip Dick, Ursula Le Guin ou Italo Calvino), vem de Borges.

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