Reynaldo Gianecchini: bonitinho, mas nada ordinário

Reynaldo Gianecchini, 33 anos, é a personificação do galã global. Boa-pinta, simpático, sorridente, jeito de bom moço, daqueles que nunca se zangam. É disciplinado - durante a nossa entrevista, preocupou-se o tempo todo com o horário da gravação - e vaidoso. Não posou para as fotos sem antes arrumar o cabelo e passar pancake no rosto. Ex-modelo, bacharel em Direito pela PUC de São Paulo, estreou na TV sem surpresa, como protagonista de novela das 9 em Laços de Família (2000), de Manoel Carlos. Inexperiente, foi reconhecido pela beleza acima da média. Na época, só pela beleza. Seria ele um novo cigano Igor, o legendário boneco de cera interpretado por Ricardo Machi em Explode Coração? Rotulado pela síndrome do cigano, Giane teve de encarar o ofício de ator. Deixou de ser só o bonitão casado com a jornalista Marília Gabriela para agora surpreender a platéia como o mecânico Pascoal, em Belíssima. O jeitão bronco, o timbre de voz, as mãos sujas de graxa, o macacão velho e as cenas com Cláudia Raia, a Safira, têm bombado a audiência. Na nossa conversa, em uma mureta nos fundos do Projac, o complexo de estúdios da Globo no Rio, ele conta que pela primeira vez na vida está conseguindo se divertir na TV e interpretar alguém diferente dele mesmo. Você sente alívio em interpretar um personagem diferente do galã de sempre? Alívio não é bem a palavra. Eu estou começando a me divertir ao fazer um personagem. Talvez eu não tenha vivido isso antes, me divertir em cena. A responsabilidade de fazer drama, trazer aquela emoção, tristeza ou coisas sempre muito intensas era sempre mais forte do que tudo. Isso me impedia de sentir prazer na gravação. Hoje em dia, eu gravo e parece que eu venho brincar. Eu me divirto, faço as cenas rindo. O que muda? O estado emocional. Para você gravar uma cena de drama e uma de comédia, como no caso do Pascoal, o estado emocional é outro. É menos desgastante fazer comédia, o que não significa que seja fácil. O drama é cansativo, você vai encontrar dentro de você a tristeza para viver aquilo, a gente sai do estúdio arrasado. Com o Pascoal não. Saio rindo, saio feliz. Você chegou a estudar um pouco de comédia quando soube do personagem? Sempre me questionei se saberia fazer. Sempre adorei, mas me sentia inseguro. Então fui estudar em Los Angeles, fiquei oito meses nos Estados Unidos. Eram cursos livres, nenhuma escola famosa. Como lá eu não tinha essa coisa do galã, ninguém me tratava como e nem tinha essa imagem de mim, fiquei solto. Até porque tinha gente muito mais bonita do que eu nas aulas. Livre dessa imagem, o professor me dava as cenas mais esquisitas para fazer, não só papéis românticos. Pratiquei, fiz muitas cenas de comédia. No Brasil tive algumas experiências legais: duas vezes no Casseta & Planeta e no último episódio do Sai de Baixo. Como foi a temporada em Los Angeles? Eu morava sozinho em um apartamento e me matriculei em cursos para estudar de domingo a domingo. Não tinha folga. Fiz aulas de interpretação, dança, canto. Também fiz pilates, ioga, coisas do corpo que eu acho que ajudam no trabalho no ator. Foi uma das épocas mais legais da minha carreira, de poder sentar em uma praça e olhar as pessoas tranqüilo, observar. É tão difícil no Brasil, temos tão pouca privacidade para ir aos lugares. Fez amigos e contatos por lá? Fiz muito amigos, gente que não tinha a menor noção de que eu trabalhava na TV e, se tinha, isso não era importante para eles. Lá não existe esse deslumbramento todo, aqui geralmente as pessoas se aproximam tão deslumbradas porque você faz televisão e fica difícil fazer amigos. Até porque você nunca sabe se as pessoas estão interessadas naquilo que você é ou naquilo que você representa. Não fui a Los Angeles para fazer contatos, mas lá a gente vive em função do cinema. Só tem gente que trabalha com cinema, ator, diretor, roteirista, todo mundo se conhece. Fiz contatos naturalmente, mas não com a intenção de fazer testes ou entrar no mercado. Para mim o que importava era estudar, estou com esse projeto desde que estreei na televisão, porque nunca tive tempo, fui emendando uma coisa na outra. Eu tenho consciência da necessidade que é o estudo na minha vida, sou muito verde ainda. Você usou o que aprendeu para compor o Pascoal? O Pascoal foi o primeiro personagem que eu tive que fazer uma composição e trazer elementos muito diferentes de mim. Na verdade ele é uma mistura de várias referências que eu achava interessante. Como ele é ingênuo, eu já achei que de cara ele deveria ter vindo do interior, tinha que ter sotaque, e fui buscar isso na minha terra (Birigüi, interior de São Paulo). Eles falam com sotaque, não errado, pelo amor de Deus, não põe isso que eles ficam putos se eu disser que eles falam errado! O sotaque é de Birigüi, o erre mais puxado. Como ele é ingênuo, transparente de alma, eu me inspirei muito no meu sobrinho, também. Tem coisas do Pascoal que eu faço que são quase uma cópia do meu sobrinho. O que, por exemplo? Coisas de criança, a maneira de falar, como ´Ô Giovanaaaaaa!!!´. Criança, que fala com ingenuidade no jeito. Tem também uma coisa que eu acho engraçadíssima no Pascoal: o mau humor. É uma característica forte dele. Eu adoro isso porque foge do traço do herói, do mocinho. Eu fui buscar inspiração lá em casa, onde tem uma das pessoas mais mal-humoradas que eu conheço: o Theodoro, filho da Marília. Ele é muito mal-humorado. Sempre ri muito desse jeito dele. Tinha horas que eu até achava que ele estava sacaneando, fazendo de brincadeira, mas não, ele estava mal-humorado mesmo, dando esporro em todo mundo. Você contou isso para ele? Contei e eu até avisei que falaria disso nas entrevistas. Mas eu falo isso para ele sempre. ´Theodoro, você é a pessoa mais mal-humorada que eu conheci até hoje!´ Para compor o Pascoal, também teve a pesquisa de rua. São Paulo tem um linguajar muito específico. Algumas pessoas com quem eu encontro até dizem que o sotaque está exagerado, mas a cidade tem uma linguagem muito própria, principalmente motoboys, office-boys, o pessoal que vive mais na rua. Eles têm um jeito de falar tipo ´tá ligado, mano´, ´mina, é isso aí...´ Visitou muitas oficinas mecânicas? Eu visitei duas oficinas na periferia de São Paulo. A mulher permeia demais o imaginário deles. Quando entra uma na oficina, causa uma tensão. Se é bonitinha e quer trocar pneu, os caras vêm atender, querem levar o carro na casa dela. Além das mulheres, o tesão por carro também é louco. Eles trocariam qualquer mulher por um carro, como eles chamam, ´envenenado´. Você adotou isso no personagem, essa forma de agir com as mulheres? Acho que sim, mas meu personagem não é galinha. Ele só não resiste às mulheres. Como ele é instintivo, não pensa muito. A mulherada dá mole, ele vai, não é cafajeste. Essa história que ele vive com a Safira, que é boa, e com a Vitória, que é muito bonitinha, na cabeça ele separa muito bem. É a relação com base no sexo e a relação com base no amor. Para ele é possível, não se misturam as sintonias, não há conflitos. Não é imoral. Ele abre o jogo para a Safira: você é gostosa, essa é nossa relação. Ele não entende por que ela fica com ciúme. O público está gostando de sua parceria com a Cláudia Raia no ar. Por que deu tão certo? Por causa da comédia. A comédia é uma coisa que pega demais as pessoas. É uma descoberta para mim, um deleite. É impressionante como atinge as pessoas, é de fácil comunicação. Você pode falar a coisa mais séria na comédia que vai se comunicar de cara com o público. Talvez por isso. A relação deles é muita tesuda, gostosa de ver, também. Quando você recebeu o convite do Silvio de Abreu, disse que estava interessado em fazer comédia? A Denise Sarraceni (diretora), com quem eu já tinha trabalhado em Da Cor do Pecado, me procurou e disse que a próxima novela dela se passaria na Grécia. Eu queria estudar, então ela ofereceu o personagem do Henri Castelli, o Pedro, que era só uma participação. Um mês na Grécia, perfeito. Passou um ano que eu estava fora do ar, o Silvio falou: "Giane, você deveria fazer um personagem inteiro , a Globo nem vai aceitar que você faça só uma participação depois de tantas férias." (Gianecchini é contratado fixo da casa). Ele me ofereceu o Pascoal. Fiquei feliz de o Silvio acreditar em mim para fazer isso. Pouca gente tem a ousadia de oferecer papéis fora do padrão para alguém que não está acostumado. Acho legal quando as pessoas te dão a oportunidade de sair de um estereótipo... se deixar, você vai ficar a vida inteira fazendo mocinho, o cara romântico, o herói. O Pascoal, apesar de ser diferente, ainda faz parte do imaginário feminino. Você acha que um dia vai interpretar um personagem que fuja disso? Eu acho que posso, dá para fazer papéis que não tenham foco na beleza. Não sou um cara tão simétrico, eu tenho nariz torto. O que é simetria? Meu rosto não é aquela perfeição de simetria. Tem gente que em qualquer ângulo fica perfeito, não é meu caso. A Marília voltou a atuar depois do casamento, você tem influência nisso? Na verdade Marília sempre foi atriz, ela só se permitiu fazer isso agora. Com a idade, ela deve ter relaxado e falado: "Quer saber, vou me permitir fazer outras coisas que eu me propuser." Foi lá e fez bem para caramba. Mas isso não tem nada a ver comigo. Ela se despudorou para fazer coisas que dão prazer para ela. Não tem medo de arriscar na vida.

Agencia Estado,

13 de fevereiro de 2006 | 12h33

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