Revolução pela causa modernista

Em Azul, o nicaraguense Rubén Darío desenvolve crítica à sociedade que condena o artista a um lugar de desconforto

Ronaldo Correia de Brito, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

Trinta e três anos separam a publicação de Folhas de Relva, de Walt Whitman, e Azul, de Rubén Darío. Aproximados pela modernidade que inventaram e pela admiração comum a vários poetas e ao filósofo Ralph Waldo Emerson, os dois vivem em Américas recém-libertas do colonialismo, mas bem distintas entre si. Octavio Paz escreveu que "a singularidade da poesia de Whitman no mundo moderno só pode ser explicada em função de outra, ainda maior, que a engloba: a da América".

A poesia exaltada de Whitman, celebrando o "destino manifesto" que garante aos Estados Unidos o direito de expandir-se sobre as nações, propõe "que nada é melhor do que a simplicidade... que nada pode compensar o excesso ou a indefinição". Carregada de discurso e ideário, de incitamento e instrução a poesia whitmaniana é o contrário do que observou o crítico espanhol Juan Valera sobre o livro Azul, nas suas Cartas Americanas: "Se me perguntassem o que ensina o seu livro e de que trata, responderia sem vacilar: não ensina nada e trata de tudo e nada. É obra de artista, de mera imaginação."

O livro que "nada ensina", publicado em 1888 por um jovem nicaraguense de 21 anos, com contos curtos e alguns poemas no final, se transformaria no marco do denominado modernismo literário em língua espanhola. Bem distinto do extenso manifesto da primeira edição de 1855 das Folhas de Relva e da simplicidade de Whitman, Rubén Darío escreveu um artigo em que é possível vislumbrar um propósito para os contos de Azul:

Juntar a grandeza ou os esplendores de uma ideia no cerco burilado de uma boa combinação de letras; lograr não escrever como os papagaios falam, mas falar como as águias calam; ter luz e cor num engaste, aprisionar o segredo da música na armadilha de prata da retórica, fazer rosas artificiais que cheiram a primavera, eis aí o mistério. E para isso, nada de burgueses literários, nem de frases de cartão.

Nos 13 contos selecionados pelo selo Demônio Negro (da editora Annablume), lançados com prefácio de André Fiorussi, é possível reconhecer o projeto literário de Rubén Darío (1867-1916): a crítica ao mundo burguês em que o artista parece não ter um lugar confortável; a imaginação exótica; a escolha por geografias que tanto podem situar as narrativas na França, Itália e Espanha como na Grécia clássica, em meio a ninfas, faunos e sátiros.

O confronto entre a poesia e a insensibilidade burguesa aparece no conto O Rei Burguês, que narra a tentativa de um poeta sobreviver de sua arte na corte de um soberano mecenas. O tom da narrativa é irônico, bem ao estilo das histórias de Andersen e Oscar Wilde, embora a influência evidente na obra de Darío seja da literatura francesa. É possível reconhecer as leituras dos românticos e simbolistas, principalmente desses últimos, nos contos mais misteriosos ao estilo de Villier de L"Isle-Adam.

Ao contrário da onipresente América de Whitman, força motora de sua poesia nacionalista, a pátria de Darío aparece numa referência casual, no conto Pombas Brancas e Garças Morenas: "E estávamos sozinhos, à luz de uma lua prateada, doce, uma bela lua daquelas da Nicarágua"! E seguem-se empolados e retóricos "pombas brancas, arrulhadoras", "peitos níveos", "acetinados braços alabastrinos", "estrela acarminada de suas patas", "sã e virginal primavera", o que nos leva a refletir sobre as diferenças entre o poeta dos Estados Unidos que canta seu país como se ele fosse a única América e o poeta da América Central que busca na França uma outra pátria.

O modernismo de Rubén Darío consiste em não imitar ninguém, embora assimilando a literatura francesa - Flaubert, Hugo, Gautier, Banville, Mendes -, segundo Fiorussi. Inflamado pela imaginação dos românticos, parnasianos, decadentes e simbolistas, ele ousa encontrar um estilo original, um verdadeiro escândalo para a literatura espanhola ainda presa aos clichês do século de ouro, "enrijecida e anquilosada".

Rubén Darío não antecipou o feminismo, não fez a revolução sexual, não pregou a igualdade das raças, nem a liberdade irrestrita como Whitman, num tempo em que o império espanhol agonizava, dando lugar ao americano. A revolução de Darío acontece na intimidade da literatura. Mesmo assim, ele é aclamado como a voz da hispanidade e da latinidade. Azul é o paradigma de uma modernidade que, após 33 anos do lançamento das Folhas de Relva, surge como um decreto de Rubén Darío a um novo tempo: "O movimento de liberdade que me cumpriu iniciar na América se propagou até a Espanha, e tanto aqui como lá o triunfo está logrado." Num livro sobre Darío, Vargas Villa atenua essa impressão e escreve que o poeta nicaraguense acreditava assistir à aurora de uma literatura americana e se empenhava em revelá-la à Europa, mas "seu generoso sonho morreu sem se realizar, porque o que ele acreditava ser a aurora, não era senão o pestanejar de umas poucas estrelas sobre um céu muito remoto, na noite equatorial".

RONALDO CORREIA DE BRITO É ESCRITOR, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE GALILÉIA E RETRATOS IMORAIS (ALFAGUARA)

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