Revolução moral

O filósofo Kwame Anthony Appiah diz que a honra vai salvar o mundo

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h12

Ao deixar a casa paterna para estudar filosofia na Universidade de Cambridge, o escritor Kwame Anthony Appiah, hoje com 57 anos, ouviu do pai uma única recomendação, feita por cima do jornal que lia o político, advogado e diplomata Joe Emmanuel Appiah (1918-1990), descendente de reis africanos: "Não desonre o nome de nossa família". O pai, anticolonialista, embora casado com uma inglesa, Enid Margaret Appiah (1921-2006), lutou pela autonomia de Gana, que se tornou independente do Reino Unido em 1957 e virou república três anos depois. Para Joe Appiah, conquistar essa independência significou restabelecer a honra dos axântis e outros povos daquele país africano que adotou o nome Gana (Guerreiro Rei) como tributo ao antigo império que dominou a África Ocidental na Idade Média.

Appiah passou a infância em Gana, visitando com frequência os palácios de seus tios reis. Boa parte da juventude ele viveu na Inglaterra, cercado por avós e bisavós nobres - a família da mãe, uma historiadora de arte, tem lordes e barões, entre eles Charles Cripps, que, nos anos 1930, abandonou os conservadores para se tornar líder dos trabalhistas no Parlamento inglês. Esse prólogo é necessário para entender a razão de Appiah ter escrito um livro fundamental em tempos de vale-tudo: O Código de Honra - Como Ocorrem as Revoluções Morais. Sobre ele, o filósofo conversou, por telefone, com o Caderno 2, tentando responder a uma pergunta que historiadores fazem há séculos: o que podemos aprender sobre a moral ao pesquisar as revoluções que transformaram o mundo?

Como sugere a palavra revolução, diz Appiah, ela ocorre de maneira tão rápida que as pessoas mal percebem as transformações no comportamento moral. "Aprendi que a palavra honra tem o mesmo significado em todo lado, seja em Gana, no Paquistão ou na Inglaterra, concluindo ainda que alguns dos costumes abolidos em partes diferentes do mundo revelavam traços culturais em comum entre essas culturas."

Mas, o que haveria de comum entre o fim da prática do duelo para "lavar a honra" de um cavalheiro ofendido, a extinção do costume de amarrar os pés das chinesas até transformá-los num aleijão e a abolição da escravidão atlântica? Appiah responde: o senso de honra e nossa identidade - a necessidade de ocupar uma posição social e ser respeitado pela comunidade, aquilo que Hegel chamou de Anerkennung (reconhecimento).

Appiah amargou a incompreensão de seus colegas acadêmicos até que esses reconhecessem a importância dos temas que o tornariam conhecido no mundo todo: raça, etnia, sexualidade e religião. A filosofia moral moderna, excetuando-se nomes como Foucault, deu pouca atenção à honra que, segundo Appiah, é bem diferente do "respeito próprio", tão citado nos livros de pensadores contemporâneos. Na língua de seu pai, axânti-twi, quando alguém pratica um ato desonroso, dizem logo que o rosto do agente caiu (porque ele olha para o chão, morto de vergonha). Também os chineses, franceses, ingleses, alemães ou brasileiros usam expressão semelhante para o desonrado. Foi assim que Appiah desenvolveu sua cosmopolita teoria da honra, exposta no epílogo de seu livro. Como pode um homem, independente do lugar onde nasceu, ser respeitado se elimina outro em duelo, pratica um "crime de honra" matando uma mulher da própria família, apedreja outras porque traíram o marido e defende o enfaixamento dos pés de pobres e infelizes chinesinhas?

O filósofo, logo se vê, não se encontra entre os que defendem o relativismo cultural. Honra é honra em qualquer lugar, e não há cultura que justifique a humilhação ou eliminação de um indivíduo. Seu livro Cosmopolitanism: Ethics in a World of Strangers (WW Norton, 196 págs., R$ 45,90) vai na contramão dos que acreditam ter testemunhado um choque de civilizações depois dos atentados terroristas à torres gêmeas. Appiah desafia as doutrinas separatistas e defende o cosmopolitismo, antiga filosofia helênica que prega sermos todos responsáveis pelo nosso semelhante no mundo - sem que seja necessário concordar com dogmas estabelecidos. "Não existe isso que chamam de grande perigo islâmico", diz ele, provocando os que o chamam Poliana da filosofia contemporânea pelo excesso de otimismo que marca sua crença numa mudança radical do mundo, graças a atitudes de indivíduos que fazem a diferença - e provocam as revoluções morais.

Contra os códigos de honra primitivos, ele prega o cosmopolitismo, sob o risco de ser confundido com um neoconservador. Appiah garante que escreveu o livro não para provocar discórdia, mas para mostrar que atitudes ligadas à honra podem, efetivamente, mudar o mundo. "Veja, na cultura de honra do duque de Wellington, que não era entusiasta do duelo, nada impedia que ele travasse um com lorde Winchilsea, a quem desafiou, mas o gesto do último, de se dar por satisfeito e reconhecer a honra do duque, atirando para o alto, revela o respeito que tinha pelo oponente."

Assim como esse gesto foi a pá de cal no duelo entre ingleses, também foi decisiva a carta que o intelectual chinês Kang Wouwei enviou ao Palácio Imperial de Beijing, em 1898, para abolir um costume ancestral, o do enfaixamento dos pés das chinesas. "Foi o medo de parecerem ridículos aos olhos ocidentais e não serem cosmopolitas que fizeram os mandarins abolir um costume em vigor desde o século 13." A honra começa com pés nus e não com a deformação e a dor que envolvem seu enfaixamento. O resto, como diz o Eclesiastes, é pura vaidade.

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