Revolução de forma e conteúdo

Digitalização muda não só o modo de fazer, mas o de se consumir audiovisual

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2011 | 03h08

Não é clichê, mas fato que nos últimos anos a tecnologia digital causou revoluções no mercado de cultura e entretenimento mundial. A música deixou de depender do suporte para circular livremente por mp3 players pelo mundo. Os filmes agora também podem ser guardados, 'transportados e exibidos em formatos digitais. O digital democratizou a produção de filmes. Sem depender da película, cada vez mais curtas e longas são filmados, vão direto do cartão de memória para o HD, do HD para a edição, da montagem para o cinema.

Por falar em cinema, produções digitais deixarão de ser transferidas para a película e passarão a ser exibidas em formato digital. Ou seja, o audiovisual do 35 mm está próximo. Nos Estados Unidos, exibidores e distribuidores decretaram que 2013 é o ano do fim da circulação das cópias em película no mercado americano. Esta decisão terá impacto mundial. Os mercados terão de se adaptar para receber e exibir as produções digitais. Há estimativas de que até 2015 mais nenhum país no mundo vai exibir novas produções em película, já que, em menor escala, a produção se torna a cópia física mais cara.

Será o começo de uma nova forma de se consumir o audiovisual. A digitalização vai levar o mercado audiovisual para a era dos lançamentos de fato simultâneos. Com o barateamento do custo de exibição, salas em locais distantes não dependerão mais do transporte de película para mostrarem filmes. Muda também o uso que se faz do audiovisual. Em vez de só para se assistir a filmes, Os locais passam a ser usadas para transmissões ao vivo de peças, shows, óperas e até jogos de futebol. Em um país em que há demanda excedente para estádios de futebol, já houve várias sessões lotadas para se assistir a clássicos na grande tela.

Sem contar que cidades que não têm a chance de receber uma ópera ou uma balé podem ter acesso a transmissões de obras-primas como Fausto, que ganha sessão no sábado, diretamente do Metropolitan Opera de Nova York (o MET) em São Paulo, Paraná, Brasília, Rio, etc.

Então, com a revolução do digital, o Brasil só tem o que comemorar? "Não ainda. Estamos muito atrás. Pode parecer apocalíptico. E é. Se não corrermos e não equiparmos nossas salas com projetores digitais, muitos cinemas vão fechar porque não vão conseguir exibir filmes", responde Fabio Lima, da Mobz, lembrando que o País tem 2.349 salas de exibição e, destas, 240 são equipadas com projetores digitais (15%). "A transição não vai ser gradativa, Se não aprovarmos os VPF (leia abaixo) e aprovarmos a medida provisória que diminui o custo do processo, vai haver um colapso."

Fabio sabe do que fala. Criou a primeira rede de cinemas digitais do mundo, por meio da Rain network, de onde saiu há dois anos para se dedicar à MovieMobz, a 1.º empresa do mundo a distribuir filmes exclusivamente em digital e sob demanda para o cinema. Com a Mobz, espectadores podem assistir a qualquer filme em qualquer sala. Basta se mobilizar. E ter, claro, uma sala com projetor digital em sua cidade. "Se as salas não têm equipamento, de nada adianta a Mobz ter a demanda. Se não fizermos essa migração, não é só a Mobz que vai entrar em crise. É todo o sistema exibidor nacional", comentava ele no sábado, enquanto assistia com o Estado à exibição da ópera Rodelinda em um estúdio no Pacaembu.

Lá, o sinal emitido pelo MET era captado, a 'cópia' ganhava legendas em português e era retransmitida para várias salas do País. Se não havia a chance de ver ao vivo, ao menos os espectadores tinham a oportunidade de ver uma ópera em tempo real, com altíssima qualidade de som, luz e imagem. São experiências como esta que a digitalização pode proporcionar.

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