Revolta das lantejoulas

Grupo festeja dez anos com repertório marcado pela inquietação e criatividade

O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2012 | 02h06

Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira iniciaram a comemoração dos dez anos de sua companhia com uma programação no Sesc Santana, semana passada, que reuniu três obras de seu percurso: o primeiro solo de Ângelo Madureira, Delírio (1999), criado antes da fundação do grupo; A Revolta da Lantejoula (2011); e fechando a mini temporada, a nova criação, Mapa Movediço. Hoje, a nova obra entra em temporada no Teatro Cacilda Becker, onde se apresenta até domingo.

Mostradas numa sequência, as três produções puderam traçar o arco que abriga o ponto de onde partiram e onde ele foi dar, tornando claro o atual momento da sua pesquisa. Nele se destaca uma coerência que se transforma em uma força de coesão que vai atando tudo, do começo até aqui.

Delírio já aponta para a inquietação que viria a se transformar na marca da dupla: tratar com a lógica da dança contemporânea os materiais da dança popular que marcaram a formação de Ângelo Madureira, no Recife. Aos poucos, esse trânsito entre os dois mundos foi dando nascimento a um vocabulário assinado por Ana Catarina (que tem formação em balé clássico) e por Ângelo, hoje compartilhado também por Patrícia Aockio, Luiz Anastácio e Beto Madureira, bailarinos que os têm acompanhado nos trabalhos em grupo (a eles acaba de se juntar Juliana Augusta Vieira).

Dos muitos tratamentos dados ao rico material que foram inventando, parece ter emergido, em A Revolta da Lantejoula e Mapa Movediço, uma discussão mais ampla, que diz respeito aos fazeres próprios da dança. Ela aparece na forma de material artístico mesmo, e não de um tema, na forma de uma metáfora que pode ser chamada de 'corpo-lantejoula'.

No Revolta, o objeto lantejoula havia aparecido e nos feito pensar na relação "um-muitos" que está nele implícita. Afinal, uma lantejoula se faz notar, mas ela, geralmente, funciona quando está reunida no conjunto de muitas outras. As metáforas da solidariedade e do estar junto são quase instantâneas, no seu caso.

Agora, no Mapa Movediço, a lantejoula deixou de ser objeto para virar sujeito, que, na forma de um corpo-lantejoula, agora conduz tudo. Aparece no chão coberto de ilhas de lantejoula, que vão sendo desfeitas pelo caminhar dos bailarinos. Um chão-corpo-lantejoula que deixa de ser plano e convida ao tropeço. O caminhar constante do elenco passa a desenhar mapas sempre diferentes, que brotam dos sons que vão sendo produzidos pela fricção pé-lantejoula-chão. Mas eles nunca ficam prontos, estão sempre mudando.

Por mais que o grupo faça, as lantejoulas não ficam organizadas: elas escapam, borram qualquer possibilidade de compor um mapa de contornos estáveis. Mesmo quando todos os bailarinos se dedicam a uma mesma tarefa (exemplo: empurrá-las para um mesmo lugar), não conseguem completá-la. As lantejoulas continuam a escorrer, não se submetem. Ninguém dá conta delas, nem mesmo quando tentam aplicá-las na própria pele.

A força simbólica da associação da lantejoula com a cultura popular se impõe. Suas cores e brilhos mantêm presente essa referência, mas também a modificam, fazendo dela um rastro tão mutante quanto o das trilhas que vão sendo desenhadas e apagadas pelo chão dos percursos.

Neste Mapa Movediço - que ótimo nome para indicar do que trata essa criação - não mais conseguimos encontrar as habituais delimitações entre contemporâneo e popular. Estamos no cortejo instalado pelo corpo-lantejoula, esse tipo de corpo que precisa dos outros para cumprir a sua função. Nele, reis e rainhas estão abolidos. Querendo ou não, as lantejoulas se infiltram e se espalham, e nessa desobediência/resistência têm algo a nos ensinar.

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