Revoada de vaga-lumes

O menino voa a Brasília para visitar os tios. Está em construção a capital do País. Ainda no carro, ele se assusta com o cenário oferecido. Máquinas derrubam árvores, dizimam a vida animal selvagem e erguem belos edifícios modernos. Já em casa dos tios, alegra-se frente ao espetáculo da plenitude: no terreiro, entre a casa e as árvores da mata, evolui um peru. Sua cabeça "possui laivos de um azul-claro, raro, de céu e sanhaços". Ele é "completo, torneado, redondoso, todo em esferas e planos - o peru para sempre. Belo, Belo!". A ave doméstica é o banquete no dia seguinte. O menino se embrenha nas trapaças da gula e no horror da degola. Quer desbravá-los. Volta ao terreiro. Nele, cisca outro e semelhante peru. Constata: "Oh, não. Não é o mesmo. Menor, menos muito". A cópia não é bela e é cruel. Pega de bicar a cabeça degolada, atirada no lixo pela cozinheira. Trevas arrebatam menino e mundo. Leve e misteriosa luminosidade flutua nas profundezas da noite: "Voava a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vaga-lume. Sim, o vaga-lume, sim, era lindo! Tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a alegria".

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2011 | 00h00

Intrometo o conto As Margens da Alegria, de Guimarães Rosa, na leitura do belo livro de Georges Didi-Huberman, Sobrevivência de Vaga-Lumes (Editora da UFMG, 2011), para que se contextualize, outra vez em quando, a modernidade tardia brasileira.

O Rosa intrometido realça a metodologia adotada por Didi-Huberman, em que a arte e os seus produtos solicitam a reflexão filosófica. Realça, ainda, o paradigma das trevas e da luz, oriundo do Inferno e do Paraíso dantescos. O contraste se reproduz hoje nos escritos legados por Pier Paolo Pasolini, Walter Benjamin, Giorgio Agamben e Georges Bataille. Genocídio e fulgurações da alegria. Barbárie bélica e clarões de beleza. Poluição e estilhaços de esperança. Perda da voz política e experiência interior. Conservadorismo acachapante e sobrevivência em lascas. A luzinha viva, intermitente e reservada dos vaga-lumes perturba a alta voltagem festiva e feérica dos refletores na sociedade do espetáculo.

Sobrevivência de Vaga-Lumes não se contenta em apenas descrever o não à luz espetacular da televisão e dos shows. Ao nomear uma comunidade de vaga-lumes, pretende organizar o pessimismo moderno e sustentar um espaço de imagens artísticas contraideológicas que visam a minar a fúria das pressões obscurantistas. Por não subscrever o horizonte entrevisto pela visão teológica ou apocalíptica de Giorgio Agamben, deseja afiar o olhar na pedra de amolar das imagens que transitam próximas a nós, minúsculas e fugidias. René Char: "Se moramos num clarão, ele é o coração do eterno". O saber-vaga-lume é, às vezes, um não-saber, e é sempre saber clandestino, intempestivo e hieroglífico. Enriquece-se com realidades constantemente submetidas à censura e à tortura. Coletados por Charlotte Beradt nos campos de concentração, os sonhos "nada explicam, nem a natureza do nazismo nem a psicologia dos sonhadores, embora forneçam uma "sismografia" íntima da história política do 3.º Reich". Pascal: "Ninguém morre tão pobre a ponto de não legar coisa alguma".

Para desconstruir o pensamento crítico da modernidade culpada, Didi-Huberman alicerça seu livro em duas obras. Na de Pier Paolo Pasolini, artista que, tendo inventado o viver-vaga-lume em tempos de Mussolini, acabará por abjurar, frente à ressurgência do fascismo sob a forma de "genocídio cultural", o saber bruxuleante e resistente. Alicerça-o, ainda, na obra de Giorgio Agamben, filósofo que afirma ter sido o vaga-lume incinerado pelos holofotes midiáticos e objetivos da comunicação social. Viramos povos desprovidos de luz própria. Didi-Huberman se alimenta dos escritos de Pasolini e de Agamben para engrandecê-los e, a justo título, lamentá-los. Tomemos o caso do primeiro.

Os vaga-lumes entram no universo de Pasolini na carta que escreve a um amigo em 1941. O futuro cineasta se aventura pelo campo bolonhês no mês em que Mussolini e Hitler apertam as mãos no Berghof. Noite sem lua, os amigos sobem até a Pieve del Pino onde se deparam com uma revoada de vaga-lumes: "Nós os invejamos porque se amavam, porque se tocavam em voos amorosos e luzes". O recatado alvoroço sensual dos adolescentes confina com a luminosidade mágica do desejo animal e "permanece como a alegria inocente e poderosa que é alternativa para os tempos sombrios ou por demais iluminados do fascismo". Conclui: a obra literária e cinematográfica de Pasolini tira sua força dali. É atravessada por momentos de exceção em que os personagens são vaga-lumes? "Seres humanos luminescentes, dançarinos, errantes, inapreensíveis e, enquanto tal, resistentes."

Pasolini desenvolve o tema do "genocídio cultural" a partir de 1969. As velhas gesticulações de Mussolini são suplantadas por um fascismo mais corrosivo. Intelectuais e artistas não "percebem que os vaga-lumes estão desaparecendo", escreve Pasolini em 1975. Apequenada a metáfora, sua desvalorização mortifica a visão política, ideológica e estética. Foi possível resistir ao fascismo histórico. O novo fascismo "combate os valores, as almas, as linguagens, os gestos e os corpos do povo". Analisa Didi-Huberman: "Nos últimos anos de vida, Pasolini se vê constrangido a abjurar o que tinha sido o alicerce de toda sua energia poética, cinematográfica e política".

Designar a máquina totalitária é necessário. Conceder-lhe a vitória? Pasolini não pôde, não quis mais enxergar o espaço intersticial, intermitente e nômade das aberturas, dos clarões possíveis e súbitos. Rosa, na esteira de Maiakovski em conversa com o poeta suicida Sierguéi Iessiênen: "É preciso arrancar alegria ao futuro".

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