Revivendo a euforia de Rogério Sganzerla

Mais que a memória, Luz nas Trevas resgata a arte em que ele acreditava

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 00h00

Havia o risco de que Luz nas Trevas fosse embargado pela Justiça, na sequência da disputa que envolve Helena Ignez e Ícaro Martins pela autoria do filme baseado no roteiro de Rogério Sganzerla. A Justiça deu ganho de causa à produtora Sinai Sganzerla. Luz nas Trevas é um dos grandes filmes brasileiros da 34.ª Mostra. Sem querer necessariamente tomar partido, apenas averiguando, o universo retratado é muito mais próximo das transgressões temáticas e formais que Helena revelou em seu longa de estreia, Canção de Baal, premiado no Festival de Gramado. Mas é um fato que o filme é agora mais plástico e refinado do que o anterior. Baal não exigia isso, mas pode ser - será? - a contribuição de Ícaro Martins a Luz nas Trevas.

A própria Helena não tem se cansado de dizer que a contribuição de Martins no filme foi "técnica". É o que os créditos de Luz nas Trevas deixam claro. Um roteiro de Rogério Sganzerla, um filme de Helena Ignez, direção de Ícaro Martins e Helena Ignez. Ela reivindica a concepção artística do projeto, inspirado pelo homem com quem viveu 35 anos, pai de suas filhas Djin, atriz no filme, e Sinai, produtora. No Festival do Rio, Helena disse que Luz nas Trevas não nasceu tanto do seu desejo de reviver a memória de Rogério Sganzerla, mas da vontade de reviver o cinema em que ele acreditava.

Isso lembra um pouco a história do encontro de dois grandes diretores, Billy Wilder e William Wyler, no enterro de uma das lendas de Hollywood, Ernst Lubitsch. Wyler teria dito, compungido - "Nunca mais Lubitsch!", ao que Wilder retrucou - "Pior, nunca mais os filmes de Lubitsch!", expressando que um artista vive e se renova por meio de sua obra. Sganzerla morreu em 2004, aos 58 anos. Durante sua vida, ele foi sempre obcecado pelo filme que Orson Welles fez no Brasil e ficou inacabado - It"s All True. Outra obsessão talvez fosse o filme que o tornou famoso, O Bandido da Luz Vermelha, de 1968. Sganzerla sempre polemizou muito sobre os rótulos aplicados ao seu trabalho - cinema underground, udigrudi, marginal. No fim da vida, retornou ao Bandido e escreveu o roteiro que Helena agora retoma.

Luz nas Trevas não é nem pretende ser uma refilmagem. É mais uma sequência, uma atualização e um questionamento do mito. O "bandido" está preso e descobre que tem um filho que vai seguir seus passos - na criminalidade ou na transgressão? Pois a dicotomia é um pouco essa. O "bandido", agora interpretado por Ney Matogrosso, lê na cadeia Nietzsche e Kant. A cada nova - e falsa - acusação que lhe fazem, ele descobre que seus privilégios aumentam. Seu filho, Jorge Bronze, vai ficar conhecido como Tudo ou Nada. Adorado pelas mulheres - por Djin, que faz a amante de um político corrupto -, ele segue os passos do pai na libertinagem e termina preso na mesma cadeia de onde o outro foge.

O que se vê na tela é uma atualização do conceito do filme anterior - "Quando a gente não é o melhor, a gente esculhamba", não se cansava de dizer o protagonista, interpretado por Paulo Villaça. Os privilégios de que dispõe serão uma nova forma de achincalhe? Ney canta no final e a cena foi aplaudida em cena abertas no Festival do Rio, mas a alma do filme não é tanto o bandido, mas Tudo ou Nada, magnificamente interpretado por André Guerreiro Lopes. O próprio Sganzerla não teria filmado melhor suas cenas com Djin Sganzerla. Na imagem da foto acima, eles empunham as pistolas, um contra o outro. É uma imagem emblemática de um autor poderoso. Sganzerla atualizado pelo espírito de Quentin Tarantino? No Rio, a trilha dançante de Luz nas Trevas já havia sido comparada a Tarantino, mas Helena diz que não é nada disso. A matriz é o próprio Sganzerla, que já usava a trilha desse jeito no Bandido. Há uma espécie de euforia, que André Guerreiro Lopes encarna. Ver Luz nas Trevas é como ir a uma festa de cinema.

LUZ NAS TREVAS

Reserva Cultural 1 - Hoje, 13h

MIS - Amanhã, 15h30

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