REVISTO PIANO

Livro e gravações inéditas colocam em perspectiva grande carreira de Guiomar Novaes

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2011 | 03h08

Ao apresentar, no Rio e em outras cinco cidades do eixo Norte-Nordeste, uma série de 12 recitais entre amanhã e dia 12 com os vencedores das últimas edições de incensados concursos internacionais como o Tchaikovsky de Moscou, o Van Cliburn dos Estados Unidos e o Chopin de Varsóvia, o Concurso Internacional BNDES de Piano sem dúvida cria um grande acontecimento, concebido para lançar sua terceira edição, marcada para daqui a 12 meses, no fim de 2012. O jovem pianista russo Daniil Trifonov, vencedor do Tchaikovsky de 2011, faz o recital de abertura, amanhã às 11 horas no Teatro Municipal do Rio, o mesmo palco onde dia 11 apresenta-se Nelson Freire.

O frisson mais imediato - e o próprio Nelson Freire, maior e fervorosíssimo devoto da pianista com certeza concordaria com a afirmação - fica com o lançamento, também amanhã no Teatro Municipal do Rio, do livro Guiomar Novaes do Brasil, de João Luiz Sampaio, jornalista do Caderno 2, e Luciana Medeiros, que traz dois CDs com gravações da pianista com a Filarmônica de Nova York, inéditas no Brasil. É, sem dúvida, um privilégio ter acesso a essas 2 horas e 10 minutos de música até agora inéditas. Três concertos gravados ao vivo no Carnegie Hall foram pinçados dos arquivos da orquestra: os concertos de Schumann, Beethoven (o quarto, op. 58) e o segundo de Chopin. Registros em ótima qualidade sonora, dos anos 50. Com destaque mercadológico evidente para o segundo de Chopin, que marcou, entre 9 e11 de outubro de 1958, os primeiros concertos de Leonard Bernstein como titular da orquestra. Quatro miniaturas - incluindo a Dança dos Espíritos de Gluck-Sgambati e o prelúdio das Bachianas 4 - completam essas gravações até agora inéditas comercialmente, além de uma luminosa leitura dos Papillons de Schumann.

O livro e as gravações ora trazidas a público pela primeira vez enriquecem o perfil biográfico, profissional e sobretudo da intérprete Guiomar Novaes? A resposta, em ambos os casos, é um convicto sim. De saída, tudo que se relaciona a Guiomar Novaes tem de ser previamente motivo de comemoração, já que, mais de 30 anos após sua morte, em março de 1979, ainda sabemos muito pouco sobre essa pianista fulgurante, que com justiça se coloca entre os maiores do século 20. A leitura do livro indica, também, que felizmente estamos ultrapassando o nível da pura tietagem nesse tipo de literatura. Guiomar Novaes do Brasil inaugura uma era de pesquisa criteriosa, objetiva, em torno da pianista, com foco sobretudo em seu período norte-americano - na verdade, mais de meio século de intensa atividade. Alguns números coletados por Sampaio e Medeiros são eloquentes: entre 1916 e 1966, ela fez 27 programas diferentes em 51 concertos com a Filarmônica de Nova York. Nesse período, tocou, entre outros nomes célebres, com Wilhelm Furtwängler, John Barbirolli, George Szell, André Cluytens e Leonard Bernstein.

Era tão querida pela Filarmônica de Nova York que foi escolhida como solista do concerto n.º 5.000 da história do Carnegie Hall, em 13 de dezembro de 1951, regido por George Szell. Aeolian Hall, Carnegie Hall, Philharmonic Hall (depois rebatizado Avery Fisher Hall no Lincoln Center), Town Hall - em todos esses espaços Guiomar tocou muitas vezes. Mas apreciava particularmente o auditório de 2.000 lugares do Hunter College que, afirma João Luiz Sampaio, possui um grande arquivo documental inédito sobre a pianista - boa parte dele reproduzida no livro, generoso nas ilustrações (programas e fotos).

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