Revista das Revistas

A nova ficção americana: Saul Bellow (Dialogo)

Livio Xavier,

14 de janeiro de 2011 | 23h46

Não fosse compreensível a nota de otimismo oficial que reveste a apresentação do número III da revista Dialogo, editada pela Embaixada dos EUA, bem se poderia pensar que o diretor Nathan Glick está arrombando portas abertas quando frisa: "...O interesse estrangeiro pela literatura americana mudou não apenas de intensidade, mas também de carater". Pois é fato indiscutível a influência avassalante da literatura americana, pelo menos da ficção americana, na literatura mundial, nestes últimos trinta anos. O próprio sr. Nathan Glick no seu artigo "Cinquenta anos de ficção" com o qual abre a revista a colaboração especial alarga os limites dessa influência que assim abrangeria os primeiros livros de Hemingway, dos Passos e Faulkner. Mas pode-se pensar que o ascendente universal do romance americano se manifesta não em terrenos estritamente ligados à cronologia dos seus autores que chegaram à fama internacional, e sim como consequência direta desta. Não se trata de questão de lana caprina ou, como dizem os franceses mais galantemente, de "couper um cheveu em quatre". A falada e forçada influência manifestou-se e se manifesta antes em termos de temática que de técnica literária, o que deixa presumir seja menos questão de mera imitação que de contágio irremediável ou (conforme o ponto de vista do observador) de comunicação historicamente necessária de culturas diversas.

Melhor que a crítica professoral ou jornalística, pois talvez dê noção mais exata da situação da literatura americana atual, o escritor, se inteligente, percebe diretamente tôdas as implicações do problema. E’ o caso de Saul Bellow, o afortunado autor de "Herzog", o livro representativo das mais recentes tendências psicológicas e morais na literatura de ficção americana. Nascido no Canadá, filho de imigrantes russos, educado desde criança nos EUA, diploma em Chicago, escritor profissional, é já Saul Bellow um astro internacional ("The victim", "Dangling man", "The Adventures of Augie March", "Herzog" etc.), mas, apesar disso, a sua sensibilidade literária não está ainda embotada. Dialogo reproduz uma entrevista publicada na "Paris Review", e concedida a G. L. Harper, e não "conduzida"pelo jornalista como é a moda mais recente no Brasil.

Bellow considera (que horror !) o aparecimento do realismo no seculo XIX o fato mais importante da literatura moderna. Dreiser é para ele o representante maximo dessa força que parece tão natural como a que revela a leitura de Shakespeare ou Balzac. Dreiser é pesado e como pensador é mediocre, pode-se dizer. Mas não se trata disso, evidentemente. O fato é que Dreiser nos comove profundamente: os seus romances são arrancados à vida. Depois dele, há Hemingway, Faulkner e Fitzgerald. Mas prefere o terceiro. Pensa que Hemingway não é um grande romancista, e sim criador de um novo estilo literario que reflete um estilo de vida talvez preterito.

Quanto à propria obra, Saul Bello não duvida de que os seus primeiros romances sejam bem feitos. Isto é, de acordo com o figurino. Com "Augie March" livrei-me, diz êle, das restrições que supõe a imitação. Mas "como todo plebeu emancipado, dela (a liberdade) abusei imediatamente". Desde os meados do seculo XIX, continua Bellow, os escritores não se satisfazem mais em ser apenas isso. Querem ser os seus proprios teoricos e exegetas. Julgam que é preciso tomar posição e não simplesmente escrever romances. Stendhal dizia que eram felizes os escritores sob Luis XIV porque ninguém os levava a serio. A obscuridade lhes valia muito: Corneille morreu e só muitos dias depois a côrte se dignou de tomar conhecimento do fato. Há grandes vantagens, diz Bellow, em não ser levado muito a serio: logo que o individuo se erige em instituição cultural, começam as dificuldades. A doença da época é justo que os individuos se nutrem da imagem de si mesmos criada pelos jornais, televisão, mexericos e da necessidade publica de celebridades.

O jornalista pergunta se Bellow escreve pensando num publico ideal. Não, responde Bellow. Apenas, diz êle, conto com a compreensão de outro ser humano. Não com a perfeição na compreensão que é cartesiana, mas com uma compreensão aproximada que é judaica. A longo prazo, no entanto, Bellow julga que a força da tradição leva o realismo á parodia, á satira, ao epico simulado. O jornalista pergunta então se, nos seus ultimos livros, o escritor não evoluiu da sugestão de tragedia plebeia para o estudo de personagens que tenham maiores elementos comicos. Bellow concorda e diz que estava cansado da solenidade da queixa. Forçado à escolha entre a queixa e o comico ficou com este. Como atitude é mais energica, mais sabia e mais masculina.

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