Revisitando Shakespeare

Mostra no Sesc Belenzinho contempla versões contemporâneas de três peças clássicas do dramaturgo inglês

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES , O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2012 | 03h06

Samplear não é propriamente o primeiro verbo que vem à cabeça quando o assunto é o teatro elisabetano do século 16. Mas são termos como esse que ajudam a iluminar o conceito por trás de Experimento Shakespeare, mostra que o Sesc Belenzinho abre a partir do dia 14.

Ao reunir três espetáculos, além de uma série de cursos e oficinas, o evento tenta desvendar possíveis apropriações que o teatro da pós-modernidade possa fazer da obra shakespeariana. Não se trata de levar à cena montagens fiéis de textos do bardo, mas dramaturgias que se desenvolvam a partir de seus temas e de seu universo. Peças que apresentam os personagens em novos contextos, surgindo como obras independentes de sua fonte de inspiração. "Shakespeare tem potência para o teatro que se faz hoje", considera a programadora do Sesc, Natália Nolli Sasso. "Talvez por trabalhar com esse fundo mítico. Não se sabe. O que se percebe é que esse material se presta a essa conversa com o contemporâneo."

Sucesso no Rio de Janeiro, R&J é uma leitura de Romeu e Julieta. Dirigida por João Fonseca, a peça que abre a programação retoma o trágico romance, ambientando-o em um colégio. "Existe uma peça dentro da peça. São alunos ensaiando o que seria uma montagem de Romeu e Julieta. E, com isso, cria-se um jogo teatral", diz Fonseca.

O norte-americano Joe Calarco é o autor da adaptação. Em sua leitura, ele não muda apenas a época e o cenário nos quais localiza a trama. O casal de adolescentes apaixonados é personificado por dois meninos. E, ainda que mantenha 90% do texto original, também craveja-o de inserções e referências, muitas delas à cultura pop. "A beleza e a profundidade com que Shakespeare fala do amor mantém essa história viva, capaz de atingir a todos os públicos", lembra o diretor.

Em A Invenção do Humano, o crítico Harold Bloom discorria sobre a perenidade dos personagens concebidos por Shakespeare. Suas criações ofereceram um novo sentido ao conceito de humanidade, deram ao homem contornos até então desconhecidos. É assim que muitas de suas histórias pairam hoje sobre o imaginário coletivo, mesmo para aqueles que não chegaram a ler as peças que ele deixou. "De uma forma ou de outra, as pessoas conhecem o enredo e se sentem próximas daquilo", observa Natália.

Embasado por esse ponto de vista, o evento também convidou diretores e grupos a apresentar diferentes versões de algumas cenas consagradas do autor inglês. O público poderá acompanhar a três olhares distintos para a cena do balcão, de Romeu e Julieta, e para o afamado solilóquio do "ser ou não ser", em Hamlet.

O percurso de transformação e autoconhecimento do príncipe da Dinamarca já inspirou centenas de apropriações e releituras. Entre elas, Ensaio.Hamlet, espetáculo que a Cia. dos Atores estreou em 2004. O trabalho, a ser remontado especialmente para o evento, alcançou imensa repercussão - tanto aqui quanto fora do País.

Em sua "autópsia" do personagem, o diretor Enrique Diaz e o grupo carioca retiraram a "trama do Olimpo." O intuito era aproximá-la dos novos dias. Porém, não se encerra aí. Questões biográficas dos atores se misturam à ficção. As indagações dos intérpretes diante dos papéis que estão a representar são explicitadas. Será assim que o processo de descoberta da obra clássica ocupará tanto espaço em cena quanto ela própria.

Quem também evidencia seu caminho criativo ao apropriar-se de outra tragédia é a atriz Heloise Baurich Vidor. De posse de Macbeth, ela cunhou uma versão que parte do ponto de vista da mulher do nobre escocês. A figura de Lady Macbeth surge como eixo de uma narrativa multifacetada, que toma a forma de uma "aula-espetáculo". Despontam aí inquietações com as quais Heloise deparou-se ao trabalhar o texto com seus alunos. "A ideia era aproximar os textos clássicos dos jovens, que acham essa dramaturgia chata, complicada, rebuscada", aponta Heloise. "Faço pequenos trechos preservando a dramaturgia original. E cruzo a ficção com o aqui/ agora da situação de uma aula."

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