Revisão de os cafajestes

Do Suplemento Literário[br][br]Longa-metragem de 62 foi tema da estreia, no jornal, do jovem e futuro diretor de O Bandido da Luz Vermelha e de A Mulher de Todos

Rogério Sganzerla, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

4.1.1964

Os primeiros instantes de "Os cafajestes", filme de estreia de Rui Guerra no cinema brasileiro, introduzem a inquietude que é sua caracteristica fundamental, como forma originaria e espontanea de contacto com a tragedia. A inquietude desencadeia a ansia, a ansia da procura e da indagação, e é decorrente desta ansiedade que o drama se revela.

"Os cafajestes" é um filme sobre o amor e é a partir do ato amoroso que se desenvolve. Já na cena inicial a camara embrenha pelo tunel, simbolização do ato amoroso, que é um ato de procura, procura da origem e de conhecimento. (Esta cena funciona também como aviso e prevenção de que a tragédia passa-se no submundo, que Rui Guerra usa como símbolo do próprio mundo). Assim fica esboçada a armadura do filme, que é a da procura universal do homem, da ansia do conhecimento provinda da inquietação.

Pouco depois de principiado o filme, há o desnudamento de Leda, principal personagem feminimo, que servirá para a revelação conjunta dos outros personagens. Como forma de revelação destas personagens, foram utilizados dois momentos fundamentais do filme: 1) Momento de procura. 2) Momento de revolta.

Esses momentos compõem a propria existencia tragica do homem, sucedendo-se constantemente um ao outro num ciclo de repetição. Rui Guerra constrói o primeiro momento, de procura, na perseguição de Leda nua pela praia, e o segundo, de revolta, na sequencia em que Vavá, depois de uma noite de medo e perplexidade, apanha um revolver e tenta o suicídio, mas não o consuma, disparando a arma contra as dunas. Ambos os momentos significam, para as personagens, tentativas frustradas. Mesmo assim, o ciclo persiste (procura-revolta-procura-revolta...) e isto significa que um personagem, depois de fracassar no segundo momento, retornará ao primeiro, e assim continuadamente, persistindo numa procura aprisionante. Os personagens aprisionam-se no ciclo de repetição constante, que é de estrutura circular (...), um circulo vicioso.

A fita principia com as personagens nesse estado, num confinamento ideologicamente provindo da certeza do "fatalismo histórico", que é, para Guerra, uma forma realista de captar a realidade. Leda, por exemplo, aprisionara-se pela inquietude que desencadeia "automaticamente" o ciclo de repetição, mas toma consciencia de sua situação: da crueldade do fato de ser instrumento do egoismo dos homens, que não conhece.

É inimiga do amor, teme-o, mas, acima de tudo, procura-o. (...)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.