Revisão de dois clássicos

Daniel Bento desafia o senso comum ao analisar sonata e sinfonia de Beethoven

JOÃO MARCOS COELHO, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2011 | 00h00

O maestro alemão Felix Weingartner, primeiro a gravar a integral das nove sinfonias de Beethoven em dezenas de bolachões 78 rotações entre 1924 e 1933, fez um tributo pessoal ao mestre orquestrando e gravando em 1933 a sua obra que mais admirava, entre tantas outras criações fabulosas: a Hammerklavier, a mais longa e difícil das 32 sonatas para piano (o registro está disponível em CD histórico distribuído pelo selo Naxos). Escrita em 1818, antecede em seis anos a composição da Nona Sinfonia. Ambas são consideradas os pontos mais altos da genialidade de Beethoven em seus respectivos domínios.

Ao longo das décadas, especialistas reputados, como Theodor Adorno e Maynard Solomon, consideram a Nona um retrocesso em relação à imensa sonata opus 106, pois representaria um retorno ao estilo heroico que Beethoven praticara vinte anos antes. Em sua segunda tese sobre o compositor (a primeira é de 2002, O Nascimento da Modernidade, em que faz dialogar a obra de Beethoven com a de Arnold Schoenberg), o pesquisador paulista Daniel Bento contesta de modo consistente e inovador esta postura sedimentada nos meios acadêmicos internacionais.

Em A Nona Sinfonia e Seu Duplo, a sonata e a sinfonia são minuciosamente cotejadas em pé de igualdade, na condição de "duplos", definidos como "metáforas um do outro e da própria identidade" (pg.13). Neste caso não se trata de duplos literários, mas musicais.

Há entre elas semelhanças e diferenças estruturais: "Um pensamento, ou mesmo um projeto estrutural aproxima essas duas obras, e as particularidades e a importância de cada uma, por sua vez, impedem uma leitura que reduza, em função da cronologia, a Hammerklavier a "esboço" e a Nona a "versão" definitiva de um protótipo pianístico. Caem, assim, as visões de Adorno e de Solomon de um possível retrocesso estilístico na sinfonia, em função de seu caráter mais "heroico, supostamente incompatível com a fase tardia do compositor. Seu simples espelhamento em relação à Hammerklavier inviabiliza tal leitura".

Tanto esta tese quanto a primeira, lançada em 2002, constituem pesquisa musicológica de primeira ordem e dialogam, inovando, com os maiores especialistas em Beethoven da atualidade. Falta, agora, Bento se dedicar, por que não, a escrever um livro sobre o compositor para públicos mais amplos, eliminando o aparato técnico típico de tese acadêmica.

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA E CRÍTICO MUSICAL, AUTOR DE NO CALOR DA HORA (ALGOL)

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