Revelando Helena

A homenageada do É Tudo Verdade fala de seu olhar feminista e estrangeiro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2014 | 02h06

Uma das maiores diretoras do Brasil vai, enfim, sair do quase anonimato em que (sobre)vive. Helena Solberg fez 15 filmes, mas quantos deles você conhece? Banana Is My Business, seu documentário sobre Carmem Miranda, a ficção Vida de Menina, outro documentário, Palavra Encantada, e mais um, A Alma da Gente, sobre o projeto de cidadania através da dança de Ivaldo Bertazzo. Helena fez muito mais que isso. Boa parte de sua obra ela desenvolveu nos EUA. Os primeiros filmes possuíam um viés feminista, discutiam a condição da mulher. A Conexão Brasileira, Luta pela Democracia, de 1982, abordava um assunto tabu sob o regime militar - a dívida externa do País, que Helena utilizava para discutir o envolvimento norte-americano no golpe.

Decorridos mais de 30 anos, você ainda vai se surpreender com a cara de pau com que o ex-embaixador dos EUA no Brasil, Lincoln Gordon, mente sobre a participação de seu país no golpe. "Ele mente deslavadamente", observa Helena. Na época, a ligação do ex-embaixador com a CIA já era fato conhecido. Ele não gostou do que viu no documentário de Helena. "Pensei que ia me processar", ela lembra. Aos 75 anos - mas parece menos -, a carioca Helena Solberg está sendo homenageada pelo Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. É a primeira mulher homenageada com uma retrospectiva no evento criado por Amir Labaki.

Será possível descobrir os filmes que Helena fez nos EUA, na Nicarágua, no Chile. Labaki afirma - "Com os temas que abordavam, era impossível que fossem exibidos no Brasil dos militares." É Tudo Verdade não apenas os resgata. Em parceria com a Imprensa Oficial, o festival promove o lançamento do livro de Mariana Tavares que disseca a obra da diretora. O livro foi lançado sábado no Rio, com direito a sessão de autógrafos precedida de debate. Em São Paulo, será lançado hoje no Espaço da Augusta, a partir das 17 horas. Logo na abertura de Helena Solberg - Do Cinema Novo ao Documentário Contemporâneo, há uma carinhosa apresentação de Arnaldo Jabor. Ele lembra que Helena foi a única existencialista que conheceu.

Ela ri. Lembra que teve o privilégio de entrevistar figuras como Jean-Paul Sartre, Simone De Beauvoir e Aldous Huxley. Simone foi fundamental para as mulheres dos anos 1950 e 60. Seus escritos sobre o segundo sexo abordavam criticamente o fato de a sociedade machista atribuir um papel às mulheres. Mas Helena até hoje se lembra de que, naquele encontro, tanto como o casal de intelectuais, viu uma mulher preocupada com o fato de que seu companheiro não estava tomando adequadamente os medicamentos. "Simone insistia se Sartre já tomara o remédio, ele se irritou. Mas é isso aí. Nós, mulheres, somos práticas."

O cinema não era seu objetivo. Ocorreu meio por acaso. Helena cursava línguas neolatinas na PUC-Rio quando se aproximou de Cacá Diegues e Arnaldo Jabor, que já eram cineastas (ou tentavam ser). Mordida pelo cinema, ela também resolveu se tornar cineasta. Em 1966, ninguém menos que Rogério Sganzerla montou seu primeiro curta, A Entrevista. Helena entrevista mulheres sobre temas como casamento e virgindade, enquanto uma jovem se veste de noiva. "As perguntas que fazia para elas eram as que fazia para mim mesma", observa. Foi sempre assim. Fez A Conexão Brasileira para tentar explicar os EUA para os norte-americanos, mas, na verdade, tinha de entender antes o que se passava aqui.

Dois rótulos sempre a acompanharam. Viraram definições para seu cinema. O olhar feminino e o olhar estrangeiro. O olhar feminino ela acha meio óbvio - "Sou mulher" -, mas seu cinema realmente reflete uma preocupação pela mulher. Felizmente, casou-se com um feminista, David Meyer, que compartilha sua visão de que homens e mulheres não devem se unir por grilhões. Não chega a se surpreender de que o machismo ainda seja tão forte no Brasil. "É um problema de cultura, de educação, que exige muito esforço para ser mudado. É decepcionante constatarmos que as mulheres ainda são minoria na política e nos cargos de comando."

O olhar estrangeiro é decorrência do fato de haver vivido muito tempo nos EUA. "Tenho filhos e netos que moram nos EUA. Pelo menos uma vez por ano os visito." O fato de ter vivido na "América" nunca a levou a idealizar o american way of life como algo que quisesse. Mas o fato de olhar "de fora" lhe deu distanciamento, e isso foi fundamental para seu amadurecimento como mulher e artista. Cita o caso de Carmem Miranda. "Só estudando o caso dela pode-se ir fundo na análise das relações entre EUA e Brasil. O David, meu marido e algumas vezes codiretor, teve Carmem como uma referência em sua vida. Conhecia a artista, mas tomou um choque quando descobriu, através de mim, que ela tinha uma vida pré-América e já era uma grande artista no Brasil."

Há dois anos Helena trabalha num roteiro - sobre uma mulher que viveu no exterior e mora no Brasil. A personagem, obviamente, tem muito dela. "Todo diretor se projeta no material que aborda." O tema tem mexido com ela, que avalia o retorno ao Brasil como algo enriquecedor. "Não sei quem seria se não tivesse voltado." Mas a dificuldade também é de captação, nesse momento em que o mercado privilegia outro tipo de filme. Não condena as comédias. "Vejo todas, não creio que se possa entender o Brasil sem essas ferramentas." Só não é sua praia. "Meu cinema é mais introspectivo, reflexivo. O importante é que exista espaço para todos."

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