Revelação que vem do Recife

O cantor de coco Herbert Lucena é recordista com quatro indicações para o Prêmio de Música Brasileira

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2012 | 03h08

"Cantador pra cantar coco não pode tremer a língua", diz uma das faixas do novo CD de Herbert Lucena, todo dedicado ao gênero. O papo é reto com o artista pernambucano, cujo nome, desconhecido longe de Recife e de Caruaru, despontou como recordista em indicações no Prêmio de Música Brasileira: ele concorre como revelação, melhor cantor e CD na categoria regional e ainda pelo projeto visual do disco.

A festa, que em sua 23.ª edição homenageia João Bosco, por seus 40 anos de carreira, será na quarta-feira, no Teatro Municipal. Herbert, que está no Rio para a divulgação do trabalho, finalmente vai conhecer o prédio histórico que até hoje só viu em fotografias. Como revelação, ele disputa com Criolo, cujo discurso em 2011 ganhou dimensão nacional. Herbert sabe que não será fácil - mas é assim mesmo que tem sido em duas décadas de dedicação à música.

"Sei que a possibilidade de ganhar é remota. O coco ficou muito restrito ao Nordeste, e o foco é mais o período junino. Levar para o resto do Brasil é difícil", diz. "Nem as rádios de Pernambuco tocam os artistas de lá. A gente vê neguinho com a camisa do Estado, mas na hora de ouvir música, só ouve 'fuleiragem music', esse forró de plástico de grupos como Calcinha Preta e Calypso."

O CD se chama Não me Peçam Jamais Que Eu Dê de Graça Tudo Aquilo Que Eu Tenho pra Vender. Mas isso não quer dizer que Herbert seja contra liberar sua música na internet. O que lhe desagrada mesmo é a ideia de seu trabalho, fruto da colaboração de músicos amigos, do apoio de empresas para a parte gráfica, e, principalmente, de alto investimento (financeiro e emocional) próprio, de dois intensos anos, ir parar numa banquinha.

O lançamento foi no Recife, em dezembro, onde Herbert mora há oito anos, depois de deixar Caruaru. Foi o próprio quem mandou o CD para o prêmio, sabendo que ele tem como característica antiga o intuito de revelar para um público maior artistas de qualidade, "independente de vendagem, modismo ou execução em rádios", como assinala seu criador, José Maurício Machline, há três edições com patrocínio da Vale para o evento.

"Fiquei muito bem impressionado com a capacidade que ele tem de fazer cocos sem nenhum ranço passadista", aponta João Cavalcanti, do grupo Casuarina, um dos 20 jurados.

Ex-roqueiro - chegou a ter banda, influenciado pelos ingleses dos Smiths e Depeche Mode -, apaixonado pelo legado de Gonzagão, Jacinto Silva e Jackson do Pandeiro e pelo som das bandas de pífano, gravado como compositor por Dominguinhos e Silvério Pessoa, Herbert já havia lançado um CD em 2004, Na Pisada do Coco, e é também produtor. Tem o próprio selo, o Coreto Records.

"A turma daqui ouve coco e acha que é forró, por causa do acordeom. O coco tem frases mais longas, cantadas num curto espaço de tempo", explica. "O meu trabalho é de resistência. É popular, mas não é comercial. Acho que se Gonzaga e Jackson fossem vivos hoje, dificilmente se apresentariam em palcos fora do São João. Os programadores só querem o que faz sucesso nas rádios e na TV".

Cerimônia. A apresentação do prêmio será de Zélia Duncan e Luana Piovani. Os números musicais terão João Bosco, Ney Matogrosso, Ivete Sangalo e Gaby Amarantos, entre outros artistas, cantando o repertório do homenageado.

Este ano é o segundo da versão itinerante, com shows em sete cidades - a última parada é São Paulo, dia 11 de julho. Os artistas escalados são Leila Pinheiro, Mariana Aydar, Arlindo Cruz e Péricles, além do próprio João.

São 35 categorias. Disputam 104 artistas, selecionados entre 735 CDs e 93 DVDs inscritos. Chico Buarque, Caetano Veloso, Criolo, Beth Carvalho, Dori Caymmi, Cauby Peixoto, Dominguinhos e Rosa Passos estão entre os indicados mais de uma vez.

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